“A maratona é um pacto íntimo, quase solitário, a mente enfrenta obstáculos invisíveis”, aponta o advogado e maratonista Alexandre Gomes
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Ainda era escuro quando tudo começou. No pulso, o relógio marcava muito além de quilômetros; às vezes o corpo pedia para parar, enquanto a mente determinava: “só mais um pouco”.
Foram meses de planilhas e fortalecimento, onde a periodização ditava o ritmo do calendário. Houve madrugadas em que superei o sono e manhãs em que a chuva lavou o cansaço. Houve o tênis encharcado, a unha perdida, o sol castigando a pele e os treinos noturnos nas ladeiras do Cambeba que encerravam dias exaustivos de trabalho.
A maratona é um pacto íntimo, quase solitário. A mente enfrenta obstáculos invisíveis, e entre audiências, reuniões, prazos e problemas pessoais, o tempo tornou-se um adversário poderoso. Equilibrar a vida em fios tão frágeis foi, por si só, um grande desafio.
Mas segui. Encarei o medo e a dor, carregando a disciplina nos músculos e um objetivo teimoso no coração. A cada quilômetro, a dúvida insistia: “Será que consigo ?”. Confesso que pensei em desistir, mas lembrei de quem sou e do porquê comecei. Então, apenas continuei.
No domingo, a terra sol amanheceu diferente, a chuva veio para celebrar a festa. Cada passo era parte de uma história viva; cada rua da Fortaleza centenária tornava-se o cenário de uma aventura épica. Aliás, “Fortaleza” não é apenas o nome do lugar onde vivo há 50 anos; é também vigor, potência, resistência e firmeza. Atributos que definem, com precisão, a essência de um maratonista.
Os quilômetros finais pesavam como chumbo. As dores tentavam me vencer, mas eu repetia como um mantra: “Corpo forte, mente leve”.
Até que, através dos olhos tomados de lágrimas de dor e emoção avistei o pórtico de chegada. Naquele instante, o temor transformou-se em euforia. Ao cruzar a linha de chegada, vieram à mente todos que amo, os que me sustentaram e conduziram até ali, cada gota de suor, cada renúncia e sacrifício feitos no caminho e no que me transformei.
E ali, parado, ofegante e tomado por um misto de exaustão e alegria, constatei mais uma vez: a maratona não acontece apenas no percurso. Ela acontece em tudo aquilo que nos constrói durante a jornada.
Alexandre Gomes
Advogado e maratonista