“Fortaleza corre, enquanto o futebol se apequena” – Por Luiz Henrique Campos

Hora de correr e buscar protagonismo e vida saudável. Foto: Arquivo

Com o título “Fortaleza corre, enquanto o futebol se apequena”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. ”

Estamos vivendo, nesta semana, a concretização de interessante contraste que deixou de ser percepção e virou evidência. Neste fim de semana, milhares de corredores e outros interessados devem ocupar as ruas da cidade na I Maratona Internacional de Fortaleza, com cerca de 10 mil inscritos, sendo 30 por cento desse público de fora do Estado e até do País.

Ontem, o clássico entre Ceará e Fortaleza, na Arena Castelão, acostumado a reunir grandes multidões em passado recente, mostrou imagens bem abaixo da metade da capacidade do estádio. E isso não se trata de coincidência. Trata-se de deslocamento claro de interesse.

O futebol local, que já foi uma das principais forças de mobilização popular da capital cearense, hoje convive com públicos irregulares, frequentemente na faixa de 10 a 25 mil torcedores — números modestos para a dimensão da praça esportiva e para a relevância histórica do confronto. Mais grave do que o número absoluto é a tendência da perda de consistência e de engajamento.

Enquanto isso, a corrida de rua não apenas cresce — ela se organiza, se profissionaliza e se transforma em produto de desejo. Assessorias esportivas lotadas, provas com inscrições esgotadas em poucos dias e presença massiva nas redes sociais mostram que há algo mais profundo acontecendo. As pessoas querem protagonizar sua experiência esportiva, e não apenas consumi-la.

O futebol, por sua vez, insiste em modelo ultrapassado. Ingressos caros para a realidade local, estádios que nem sempre oferecem segurança ou conforto compatíveis, horários pouco atrativos e calendário inchado que banaliza o espetáculo. Soma-se a isso um produto em campo que, muitas vezes, não entrega emoção proporcional ao custo — financeiro e emocional — de quem comparece.

É preciso dizer com clareza. O torcedor não está abandonando o futebol por acaso. Ele está sendo empurrado para fora. E, ao contrário do que dirigentes costumam alegar, a televisão não é a principal vilã. Ela é, no máximo, sintoma de experiência que deixou de ser competitiva. Hoje, para muitos, faz mais sentido acordar cedo, correr 5, 10 ou 21 quilômetros, registrar o desempenho e compartilhar conquistas, do que enfrentar trânsito, filas e frustrações em troca de jogo muitas vezes previsível, correndo o risco de ser vítima de criminosos dentro ou fora da praça esportiva.

O mais simbólico é que a maratona virou evento — e o clássico, rotina. Isso, por si só, deveria acender todos os alertas.
A Arena Castelão não esvazia apenas por fatores externos. Ela esvazia porque o futebol local falhou em acompanhar as transformações de comportamento de seu próprio público. Falhou em entender que o entretenimento esportivo hoje disputa atenção com múltiplas experiências — e que, para vencer essa disputa, é preciso mais do que tradição.

Fortaleza continua apaixonada por esporte. Mas essa paixão mudou de forma. Tornou-se mais individual, mais saudável, mais conectada e buscando qualidade de vida.

Ignorar isso não vai fazer o problema desaparecer. Pelo contrário, vai ampliá-lo.

Se nada for feito, o futebol local corre risco real — e irônico, de tornar-se irrelevante em uma cidade que nunca esteve tão ativa.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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