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“Francisco no G7”

Alexandre Aragão de Albuquerque é escritor e Mestre em Ciência Política

“Papa Francisco apresentou seu discurso: Inteligência Artificial, um instrumento fascinante e temeroso”, aponta o cientista político Alexandre Aragão de Albuquerque. Confira:

Na sexta-feira, 14, em Borgo Egnazia, na Itália, o Papa Francisco participou da sessão do Encontro do G7 dedicada sobre o uso da Inteligência Artificial e seus efeitos. É a primeira vez que um Chefe de Estado do Vaticano e da Igreja Católica tem assento neste encontro de cúpula.

Naquele dia estava previsto uma série de conversas bilaterais de Francisco com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; com a diretora do FMI, Kristalina Georgieva; com o presidente da França, Emmanuel Macron; com o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau; com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky; com o presidente do Quênia, William Samoei Ruto; com o primeiro-ministro da Índia, Narenda Modi; com o presidente dos EUA, Joseph Biden; com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan; com o presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune.

Em seguida, na sala oficial do encontro, Francisco apresentou seu discurso: “Inteligência Artificial, um instrumento fascinante e temeroso”. Abaixo teceremos brevíssimas considerações sobre trechos do documento do qual recomendamos sua leitura na íntegra. Logo nas primeiras linhas do seu discurso, o Papa é taxativo: a inteligência artificial é um instrumento, uma ferramenta, um meio. Todavia, é um instrumento sui generis. Ela pode adaptar-se, autonomamente, às tarefas que lhe são atribuídas e, sendo projetada dessa forma, fazer escolhas (escolhas algorítmicas, técnicas e estatísticas) independentes do ser humano, para alcançar o objetivo estabelecido.

Mas a decisão é o elemento mais estratégico de uma escolha, que requer uma avaliação livre, profunda e sábia. Portanto, a decisão deve ser sempre deixada ao ser humano. Francisco alerta que condenaríamos a humanidade a um futuro sem esperança se retirássemos às pessoas a capacidade de decidir sobre si mesmas e sobre suas vidas, obrigando-as a depender de escolhas das máquinas. Nisto está em jogo a própria dignidade da humanidade.

A inteligência artificial busca nos big data informações, elaborando-as segundo o estilo que lhe foi solicitado. Não desenvolve conceitos, nem análises novas. Repete as que encontra, dando-lhes uma forma apelativa. E quanto mais uma noção ou uma hipótese se repete, mais as considera legítima e válida, muitas vezes sem verificar se contêm erros ou preconceitos. Deste modo, corre-se o risco de legitimar fake news e de reforçar a vantagem de uma cultura dominante, minando a essência do processo educativo que deveria desenvolver nos jovens estudantes a possibilidade de uma reflexão autêntica, questionadora e de verdadeira conscientização.

Não se pode esconder o risco concreto de que a inteligência artificial limita a visão do mundo a realidades expressáveis em números, encerradas em categorias pré-concebidas, excluindo a contribuição de outras formas de verdade e impondo modelos antropológicos, socioeconômicos e culturais uniformes.

Ele recorda que o humano contém em si uma dignidade infinita, inalienavelmente fundada no seu próprio ser, inerente a cada pessoa humana, para além de toda circunstância e em qualquer estado ou situação que se encontre, fundamento do primado da pessoa humana e da tutela de seus direitos. Desta dignidade ontológica e do valor único e eminente de cada mulher e de cada homem que existem neste mundo fez-se eco a Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de dezembro de 1948).

O Papa insiste, por exemplo, que ao moldar o metal, criando um instrumento cortante – a faca – a humanidade simultaneamente moldou sua existência capaz de sobreviver a adversidades do seu tempo; porém com esta mesma faca desenvolveu a arte da guerra e as vidas humanas foram moldadas a um novo patamar de existência social. Agora, ao moldar um instrumento tão complexo como a inteligência artificial, os humanos verão este último moldar ainda mais suas existências.

Consequentemente, como um instrumento fascinante e temeroso, exige uma reflexão à altura da situação. Por um lado, ela poderia permitir uma democratização do acesso ao conhecimento, o progresso exponencial da investigação científica; mas ao mesmo tempo, ela poderia trazer consigo “uma maior injustiça entre nações desenvolvidas e nações em vias de desenvolvimento, entre classes sociais dominantes e classes sociais oprimidas, colocando em perigo a possibilidade de uma cultura do encontro em favor de uma cultura do descarte”. A introdução contínua de microchips, cada vez mais eficientes, já se tornou uma das causas da dominância do uso da inteligência artificial por parte de poucas nações.

Portanto, para Francisco, somente se for garantida a sua vocação à serviço da humanidade, os instrumentos tecnológicos revelarão não apenas a grandeza e a dignidade única do ser humano, mas também o mandato que este recebeu de “cultivar e guardar” o planeta e todos os seus habitantes. Pois falar de tecnologia é falar sobre o que significa ser humano e, portanto, sobre aquela condição única da relação intrínseca entre liberdade e responsabilidade, ou seja, é falar de ética.

E é exatamente aqui onde a ação política é insubstituível e necessária. A grandeza da política mostra-se quando, em momentos difíceis, trabalha-se baseado em princípios e pensando no bem comum de longo prazo. Eis a importância de uma política sã, capaz de mirar e construir um futuro com esperança e confiança. Só uma política sã poderá conduzir o processo, envolvendo os mais diversos setores e os conhecimentos os mais variados. Cabe à política criar as condições para a boa utilização dos instrumentos criados pelos humanos, entre estes a inteligência artificial.

Alexandre Aragão de Albuquerque é escritor e Mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual do Ceará (UECE)

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