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“Funeral de Ali Khamenei transforma Teerã em palco de luto, resistência e mobilização política” – Por Joaquim de Carvalho

Joaquim de Carvalho é jornalista

“Acompanhei a multidão que tomou as ruas de Teerã para a despedida de Ali Khamenei, em um funeral marcado por orações, homenagens e fortes manifestações políticas contra Estados Unidos e Israel”, aponta o jornalista Joaquim de Carvalho

Confira:

Eram 9 horas da manhã deste domingo (5), no horário local, quando cheguei à Grande Mosalla, o imenso complexo religioso e cultural onde ocorre o funeral público do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã. A cerimônia, que reúne autoridades iranianas e uma multidão de fiéis, transformou-se em uma das maiores demonstrações públicas de unidade política e religiosa desde a morte do líder supremo, assassinado há quatro meses durante o bombardeio realizado pelos Estados Unidos e Israel.

Como repórter, estava presente em meio à multidão neste domingo, gravando depoimentos e fazendo registros para um documentário do Brasil 247. No centro do grande salão estavam cinco caixões, com as cores da bandeira do Irã e dispostos sobre um palco voltado para o amplo quadrilátero onde religiosos conduziam as orações. Além do corpo de Ali Khamenei, também são velados familiares mortos no mesmo ataque, inclusive a neta, a pequena Zahra, de apenas um ano e dois meses de idade.

Enquanto um pregador entoava versos do Alcorão no ritmo característico da tradição xiita, um homem agitava uma enorme bandeira vermelha com a inscrição “Nós vingaremos”. Ao redor, multiplicavam-se cartazes com frases como “Morte a Donald Trump” e “Morte aos EUA e a Israel”, refletindo o sentimento de revolta contra os dois países que iniciaram a guerra.

Durante alguns instantes, os cânticos religiosos deram lugar à execução do hino da Internacional Socialista. Militares da Guarda Revolucionária permaneceram em posição de sentido.

A cena remete às origens da Revolução Islâmica de 1979, quando setores religiosos liderados pelo aiatolá Ruhollah Khomeini se uniram a comunistas, socialistas e grupos nacionalistas para derrubar a monarquia do xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado dos EUA e Inglaterra em um golpe de estado no país.

A revolução marcou também uma das maiores humilhações impostas aos EUA: a ocupação da embaixada norte-americana por estudantes iranianos. O antigo prédio abriga atualmente o Museu da Espionagem dos EUA, que apresenta equipamentos, documentos e as instalações construídas para ações clandestinas ilegais de sabotagem e violência contra o Irã.

Pretendo relatar essa visita em outro artigo. Para nós brasileiros, um registro importante, que merece ser antecipado: em uma sala, estão retratos de líderes perseguidos pelos EUA, entre eles João Goulart, alvo de um golpe de estado em 1964. Os iranianos cravam que o ex-presidente da república foi assassinado no Uruguai, com a participação do governo estadunidense.

O registro prioritário deste domingo é o funeral, claramente preparado para funcionar também como um grande ato político, além de um momento de demonstração de apreço dos iranianos por Khamenei, a quem muitos iranianos se referem como pai.

No caminho até a Mosalla, homens, mulheres e crianças caminhavam carregando retratos de Khamenei e bandeiras iranianas, ao lado de cartazes com mensagens de resistência. A atmosfera era de luto, mas também de afirmação política.

Entrevistei uma professora que havia viajado cerca de 1.200 quilômetros para participar da despedida. Perguntei quem, na opinião dela, havia vencido a guerra. Ela respondeu:

“Você ainda tem dúvida? Olhe à sua volta. Veja quantas pessoas vieram se despedir do nosso líder. O Irã venceu porque está mais forte do que nunca.”

A mesma impressão de mobilização coletiva aparecia em inúmeros gestos de solidariedade. Sob temperaturas superiores aos 35 graus, voluntários utilizavam mangueiras e pulverizadores agrícolas para refrescar os milhões de visitantes. Outros distribuíam água, frutas, sucos e alimentos gratuitamente ao longo do percurso, repetindo uma tradição comum em grandes cerimônias religiosas xiitas.

Logo na saída da mesquita, dois homens organizavam uma campanha de arrecadação para financiar tratamentos de pessoas com doenças raras e a restauração de túmulos de famílias pobres.

Um morador de Teerã explicou que esse tipo de contribuição faz parte da tradição xiita durante os velórios. Segundo ele, a caridade realizada em memória dos mortos representa uma forma de honrar quem partiu e também de buscar mérito espiritual para quem doa.

Os organizadores pediram que eu não gravasse vídeos do momento. Disseram que preferiam evitar constrangimentos aos doadores e impedir que o gesto fosse interpretado como demonstração de vaidade.

Enquanto isso, dentro da Grande Mosalla, as principais autoridades iranianas participaram da oração conduzida pelo aiatolá Ja’far Sobhani, de 97 anos. Estavam presentes o presidente Massoud Pezeshkian, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, além de comandantes militares e três filhos de Khamenei.

A ausência de Mojtaba Khamenei, atual líder supremo, já era prevista e continua cercada de especulações desde o ataque que matou seu pai. Ele foi ferido e, desde que foi eleito líder supremo do Irã pela assembleia de aiatolás, tem se manifestado apenas por cartas.– sem vídeos, áudios ou aparições públicas.

O governo iraniano declarou domingo e segunda-feira feriados nacionais para proporcionar a participação popular, e estima que entre 15 e 20 milhões de pessoas acompanhem as cerimônias em Teerã.

Após a passagem pela capital, o cortejo seguirá por Qom, depois pelo Iraque, antes do sepultamento definitivo em Mashhad.

Caminhar entre essa multidão representou, para mim, uma oportunidade rara de observar uma realidade muito diferente das versões frequentemente registradas fora do Irã, que tem muita desinformação e preconceito, que disfarçam interesses geopolíticos.

O funeral revelou uma sociedade profundamente mobilizada por símbolos religiosos, nacionais e políticos, na qual o sentimento de resistência ocupa um lugar central.

Joaquim de Carvalho
Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa). E-mail: joaquim@brasil247.com.br

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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