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“Hidrogênio Verde no Ceará: a importância do mercado local” – Por Alex Araújo

Alex Araújo é economista.

Com o título “Hidrogênio Verde no Ceará: a importância do mercado local”, eis artigo de Alex Araújo, economista. “Esse processo depende, no entanto, de um fator central: energia. O hidrogênio verde é intensivo em eletricidade, e seu custo depende diretamente do preço e da estabilidade do fornecimento. A articulação entre geração renovável, contratos de longo prazo e infraestrutura de transmissão torna-se, portanto, decisiva”, expõe o articulista.

Confira:

O avanço do projeto FortaVerde, liderado pela Möhring Energie no Complexo do Pecém, sinaliza uma mudança estratégica relevante: trata-se, possivelmente, da iniciativa mais economicamente consistente para o desenvolvimento da indústria de hidrogênio verde (H2V) no Ceará. Essa consistência decorre de uma escolha simples, mas decisiva: construir primeiro um mercado local para o uso do hidrogênio como insumo industrial, antes de depender da exportação.

Essa decisão altera o ponto de partida. Em vez de apostar em uma demanda externa ainda incerta, o projeto se ancora em usos já existentes — como fertilizantes, refino e processos químicos nas indústrias siderúrgica, de cimento e de vidros — onde o hidrogênio fóssil pode ser substituído. Isso transforma uma aposta em um problema de substituição econômica: não é necessário criar um novo mercado, mas competir dentro de um mercado já estabelecido.

O FortaVerde integra o hub de hidrogênio verde do Pecém, concebido para posicionar o Ceará como um polo global de moléculas verdes. Seu desenho é modular: começa com uma planta piloto de 12 MW e avança progressivamente até 2,2 GW. Essa progressão não é apenas técnica; ela funciona como uma sequência de decisões condicionadas. Cada etapa valida custos, tecnologia e demanda antes de justificar a próxima.

Esse modelo reduz risco. Projetos que buscam escala imediata dependem de previsões otimistas sobre preço, regulação e demanda internacional. O FortaVerde, ao contrário, cria pontos intermediários de verificação. Se as condições não se
confirmarem, o investimento pode ser ajustado ou interrompido.

A lógica do modelo de negócios reforça essa abordagem. Embora inclua exportação — especialmente via amônia — o projeto não depende dela para viabilização inicial. Isso é relevante porque o hidrogênio é difícil de transportar: sua baixa densidade exige compressão, liquefação ou conversão, todas operações caras. Mesmo a amônia, solução mais viável, ainda requer infraestrutura específica e enfrenta custos logísticos relevantes.

Diante disso, exportar hidrogênio envolve riscos adicionais: regulação nos mercados de destino, volatilidade de preços e competição com países mais próximos da Europa ou com custos energéticos ainda mais baixos. Ao priorizar o consumo local, o FortaVerde reduz essa exposição.

Além da redução de risco, há um efeito estrutural. Quando a produção de hidrogênio se conecta a indústrias locais, ela gera um ecossistema: fornecedores se desenvolvem, mão de obra se especializa, novas empresas são atraídas. O Pecém
reúne condições para isso — infraestrutura portuária, base industrial e projetos complementares — o que permite a formação de um cluster.

Esse processo depende, no entanto, de um fator central: energia. O hidrogênio verde é intensivo em eletricidade, e seu custo depende diretamente do preço e da estabilidade do fornecimento. A articulação entre geração renovável, contratos de longo prazo e infraestrutura de transmissão torna-se, portanto, decisiva.

Os desafios permanecem. O custo da energia pode comprometer a competitividade. A tecnologia de eletrólise ainda está evoluindo. A demanda industrial precisa ser coordenada. O financiamento exige horizonte longo e estabilidade. E, sobretudo, a governança do ecossistema requer alinhamento entre múltiplos atores.

Ainda assim, o FortaVerde se diferencia por estruturar esses desafios de forma sequencial, e não simultânea. Em vez de depender de todas as condições ideais desde o início, ele cria um caminho em que cada etapa aumenta a probabilidade de sucesso da seguinte.

O ponto central, portanto, não é apenas que o FortaVerde seja um bom projeto dentro do setor de hidrogênio verde. É que ele representa uma lógica diferente de desenvolvimento industrial. Em vez de partir de uma visão global e tentar encaixar o território nela, o projeto parte das condições locais e constrói, a partir delas, uma trajetória de expansão.

Essa inversão tem implicações profundas. Ela transforma o hidrogênio verde de uma promessa dependente de mercados externos em um instrumento de reorganização produtiva interna. O risco deixa de estar concentrado em variáveis fora do controle — como demanda europeia ou competição internacional — e passa a ser distribuído em variáveis que podem ser, ao menos parcialmente, coordenadas localmente.

O verdadeiro teste do modelo, portanto, não será a capacidade de produzir hidrogênio em larga escala, mas de articular simultaneamente quatro elementos: energia competitiva, demanda industrial estável, evolução tecnológica e coordenação institucional. Se esse alinhamento ocorrer, o efeito tende a ser cumulativo — redução de custos, atração de novos investimentos e consolidação de um cluster industrial.

Nesse cenário, o Ceará não apenas participaria da transição energética, mas redefiniria sua posição nela. De exportador potencial de energia, passaria a ser um centro de transformação industrial baseado em energia limpa. Essa diferença é
estrutural: exportar energia captura margens; internalizar seu uso captura valor.

Retomando a tese inicial, é essa capacidade de transformar uma oportunidade tecnológica em uma estratégia econômica coerente que distingue o FortaVerde. Mais do que antecipar o futuro do hidrogênio verde, o projeto tenta resolver, no presente, as condições que tornam esse futuro possível.

*Alex Aráujo

Economista  e ex-secretario do Desenvolvimento Local do Estado.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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