“Hipóteses muito reais” – Por Plauto de Lima

Plauto de Lima é coronel RR da PMCE e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas.

Com o título “Hipóteses muito reais”, eis artigo dePlautom de lima, coronel da reserva da PMCe e escritor. “(…) podemos dizer que o Estado do Ceará é um narcoestado: um estado dentro do estado, governado pela força do crime”, expõe o articulista.

Confira:

Há perguntas que surgem como feridas abertas. Perguntas que não querem apenas respostas, mas consciência. Neste texto, proponho um exercício de imaginação incômodo: olhar para situações que parecem distantes, mas que, às vezes, estão bem ao lado da nossa porta.

E se houvesse um lugar onde as pessoas precisassem esconder seus pertences ao caminhar pelas ruas, com medo constante de serem assaltadas?

E se cidadãos comuns passassem a blindar seus veículos para sentir um pouco de segurança ao circular pelas avenidas?

E se comerciantes fossem obrigados a pagar taxas à criminalidade para abrir suas portas, e os bandidos decidissem até o horário em que as pessoas podem sair de casa?

E se moradores de um bairro fossem proibidos de ir a outro, pois ali domina uma facção rival?

E se o número de assassinatos, ano após ano, ultrapassasse milhares de vidas perdidas, até que quase quarenta mil famílias chorassem seus mortos em apenas uma década?

E se tantos roubos deixassem de ser denunciados que as estatísticas já não conseguissem traduzir a realidade, e parte da população agradecesse ao crime pelo “favor” de impedir furtos em suas comunidades?

E se, para entrar em determinadas áreas, fosse necessário baixar o vidro, retirar o capacete e se identificar para criminosos armados, sob risco de julgamento e execução sumária por tribunais do tráfico?

E se toneladas de drogas atravessassem portos e aeroportos desse lugar, abastecendo um império ilegal que ninguém parece deter?

E se policiais fossem emboscados e mortos aos montes, como alvos marcados por protegerem quem já não sabe quem manda?

E se políticos se aliassem ao crime para se eleger e adversários fossem impedidos até de fazer campanha?

E se dezenas de prefeitos fossem escolhidos não pelo povo, mas pelas facções?

E se um partido que usufruísse desses resultados jamais pedisse desculpas à população e se calasse diante da violência que o impulsionou?

E se esses prefeitos, assim erguidos, fossem convocados a retribuir o apoio ajudando a eleger um sucessor em uma capital dominada pelo medo?

E se…?

Infelizmente, isso tudo é real. Mas parece que as autoridades insistem em negar cinicamente essa realidade, percebida com tanta dor por toda população. Dessa forma, podemos dizer que o Estado do Ceará é um narcoestado: um estado dentro do estado, governado pela força do crime.

*Plauto de Lima

Coronel RR da PMCe e escritor.

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