Com o título “Homem não chora”, eis mais um texto de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Confira:
Há frases que a gente escuta e só entende bem depois. Ditas sem cerimônia, no meio da correria da vida, acabam nos acompanhando como uma teimosia que gruda e não larga o juízo de qualquer cristão.
“Na chuva, ninguém sabe quem está chorando.”
Ouvi isso de uma senhorinha já muito idosa, numa barraca de frutas da feira, por trás da Igreja Nossa Senhora da Saúde. Foi dito sem poesia aparente, como quem comenta se vai chover. Mas ali havia um aviso claro: ninguém sabe o peso que o outro carrega – nem quando parece que todo mundo está apenas molhado.
O saudoso amigo Naná Vasconcelos, músico maior, criador de sonoridades e referência da percussão mundial, não gostava nem um pouco de despedidas, fossem quais fossem. Quando a emoção acochava, escapulia com fineza: dizia apenas que estava chovendo na alma. Talvez por isso aquela frase da senhorinha na feira nunca tenha me largado.
Sou do tempo em que “homem não chora” era mandamento – artigo da famosa Lei Chico de Brito, aquela do “escreveu, não leu, o pau comeu”. Vinham os reforços: “isso não é coisa de homem”. Menino aprendia cedo a travar. Medo, afeto, frustração – tudo resolvido no tutano da titela. Chamavam de firmeza; era treino de silêncio.
Talvez por isso alguns episódios tenham ficado.
No bairro Jacarecanga, contam que o danado do menino Camurça, chorando aos prantos, contou ao pai que estava de castigo por algo que não tinha feito. Injuriado, o pai quis saber do quê. O menino respondeu, entre soluços: “O dever de casa.”
Espiem o drama, a injustiça e a vida real, tudo no mesmo caderno.
No bairro Papicu, os senhores Joaquim e Deusdeth, velhos amigos, reencontraram-se depois da distância de muitos anos. Joaquim, emocionado, com os olhos marejados, contou que havia completado 52 anos de casado. Deusdeth ouviu com atenção e perguntou, seco: “E vocês ainda se falam?”
Pois é, amizade antiga não perde a ternura, mas não desperdiça a ironia.
No bairro Parquelândia, para demonstrar intimidade na frente dos outros, o enxerido Arlindo perguntou à sogra se ela choraria muito caso ele morresse. Ela respondeu sem pestanejar: “Claro, meu genro. Você sabe que eu choro por qualquer besteira.”
Na lata, o luto ficou do tamanho exato da convivência.
Mas, no sério, o choro não é sinal de fraqueza, como nos ensinaram, e sim de lucidez. Um jeito simples de reconhecer limites, afetos, perdas e alegrias.
No fim, chorar pode ser só isso: continuar humano – mesmo quando ninguém nota. Nem mesmo na chuva.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.