Com o título “Inteligência artificial transforma livros em matéria-prima”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará. “Imagine dois exemplares da mesma obra. Um deles pertenceu a um escritor e trazia anotações feitas por ele. O outro é uma edição comum. Depois da digitalização, os arquivos podem ser praticamente iguais. Mas, para um estudioso, eles têm importância muito diferente”, expõe a articulista.
Confira:
É fato que a inteligência artificial está presente no nosso cotidiano, nas empresas, nos serviços e na forma como produzimos e consumimos informação. Seus benefícios são conhecidos e inegáveis. Mas precisamos estar atentos ao que as companhias de tecnologia estão fazendo para desenvolver sistemas cada vez mais potentes.
Uma dessas práticas é a disputa por obras em sebos. Livros antigos e fora de catálogo estão sendo procurados pelas empresas de IA com o objetivo de servir de material para o treinamento dos grandes modelos de linguagem.
O problema começa quando, para obter esses textos, o livro é destruído.
Em processos de digitalização em larga escala, a lombada pode ser cortada, as páginas separadas e as brochuras submetidas a scanners industriais. Em pouco tempo, milhares de páginas são transformadas em arquivos digitais, mas a publicação deixa de existir.
Há séculos, os sebos são lugares onde livros antigos encontraram novos leitores. Muitos deles já não são publicados nem comercializados pelas editoras. Alguns carregam carimbos e fotografias deixadas por seus antigos proprietários.
Uma edição pode ter uma encadernação particular, ilustrações ou outras características que desaparecem quando a obra é desmontada.
Para o livreiro, o pesquisador ou o colecionador, aquele exemplar certamente tem outro valor. Já para quem busca dados, o que interessa é o texto.
É nesse ponto que as empresas de IA estão entrando no mercado dos sebos.
Especialmente na Europa, estão comprando milhares de títulos de uma só vez. Quando isso acontece, essas publicações passam a ser tratadas apenas como matéria-prima para alimentar seus sistemas.
Imagine dois exemplares da mesma obra. Um deles pertenceu a um escritor e trazia anotações feitas por ele. O outro é uma edição comum. Depois da digitalização, os arquivos podem ser praticamente iguais. Mas, para um estudioso, eles têm importância muito diferente.
As anotações, a assinatura e a dedicatória podem ajudar a reconstruir a trajetória do livro e sua circulação, mas o arquivo resultante não preserva necessariamente essas marcas, uma vez que a digitalização conserva o texto e facilita o acesso a ele, sem, contudo, preservar o objeto e sua história.
Há anos, o mercado editorial enfrenta profundas transformações, impulsionadas pelas mudanças nos hábitos de leitura, pela expansão das plataformas digitais e pela redução do espaço para publicações independentes. Nesse processo, uma parte importante da produção cultural corre o risco de desaparecer.
É o caso dos fanzines, jornais independentes, pequenas edições, literatura marginal e documentos de movimentos sociais. Muitas dessas publicações existem somente em papel.
A sociedade não pode permitir que empresas de tecnologia, sob o argumento de que seus sistemas de IA precisam de grandes volumes de textos para serem treinados, determinem o destino dos livros, sobretudo quando estão em jogo obras que preservam parte da memória, da histórica e da diversidade cultural de povos e nações.
*Suzete Nocrato
Jornalista e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.
suzete.nocrato@gmail.com