Com o título “Jornalismo exige diploma”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestra em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. “Defender o diploma é defender um jornalismo mais preparado para proteger a própria liberdade de informação e a democracia”, expõe a articulsita.
Confira:
Os jornalistas brasileiros retomaram uma luta perdida em 2009, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Na última semana, a FENAJ, entidade máxima da categoria, intensificou a campanha pela volta da exigência do diploma e pela valorização do jornalismo.
O movimento nacional é necessário e urgente. Nestes tempos em que o Brasil, dia sim, outro também, vê sua democracia ameaçada interna e externamente, é imperioso que o Jornalismo deixe de ser tratado como uma atividade em que qualquer pessoa está apta a exercer apenas por saber escrever ou ter opinião.
O ofício requer procedimentos que não podem ser improvisados. Apurar um caso, verificar sua origem, ouvir diferentes versões, identificar o que é relevante e publicar um conteúdo com responsabilidade exigem mais do que bom senso ou capacidade de escrever. São atividades que requerem conhecimento das técnicas jornalísticas, da legislação e dos princípios éticos que orientam a profissão.
A decisão do STF, em 2009, precisa ser reavaliada diante das profundas mudanças ocorridas desde então. As redes sociais ampliaram o alcance da informação e facilitaram a circulação de conteúdos manipulados, fake news e notícias sem apuração.
Nesse ambiente, opinião, desinformação e boatos se misturam com facilidade, exigindo ainda mais rigor na prática jornalística. Cabe ao jornalista apurar e verificar os fatos, confrontar versões e assumir a responsabilidade pelo que divulga. É nesse processo que a formação profissional se torna fundamental.
É uma falácia dizer que a exigência do diploma fere a liberdade de expressão. Qualquer cidadão pode expressar suas ideias, opiniões e convicções, criar um blog, manter um canal nas redes sociais, produzir um podcast ou publicar conteúdos na internet. Exigir formação para o exercício profissional não impede ninguém de se manifestar.
O diploma, reconheço, não é garantia de ética nem de bom jornalismo. Contudo, a formação universitária oferece conhecimento técnico e possibilita discutir ética, legislação, responsabilidade e a função social da profissão. Não se trata de acreditar que todo jornalista diplomado será necessariamente ético ou competente, mas de reconhecer que a preparação profissional contribui para o exercício responsável da atividade.
Abrir mão dessa preparação, justamente em um momento em que a informação circula com enorme velocidade e a desinformação dificulta a distinção entre notícias confiáveis, opiniões, boatos e informações falsas, foi uma decisão que precisa ser reconsiderada.
Defender o diploma é defender um jornalismo mais preparado para proteger a própria liberdade de informação e a democracia.
*Suzete Nocrato
Jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.
suzete.nocrato@gmail.com