Com o título “Jus Esperniandi”, eis mais texto de Francisco J. Caminha.
Confira:
Nos bancos da Faculdade de Direito do Ceará, em nossos costumeiros e hilariantes debates, circulava uma expressão “interna corporis” que não consta de nenhum compêndio jurídico, mas que todos compreendíamos perfeitamente: “jus esperniandi”.
Era o “direito de espernear”.
Quando um de nós perdia nos argumentos, a gente brincava:
— Colega, só resta a você o “jus esperniandi”.
Isso significava que podia reclamar, protestar, indignar-se ou procurar explicações.
Havia também uma variante, ainda mais saborosa: o “jus estribuchandi”.
Essa brincadeira dos tempos da faculdade contém uma lição muito mais profunda sobre a nossa condição humana.
Perder é uma das experiências mais difíceis de aceitar. Desde cedo somos educados para celebrar a vitória, mas raramente aprendemos a administrar a derrota. Queremos explicações para aquilo que nos frustra. E, quase sempre, é mais confortável encontrá-las fora de nós.
No futebol, a culpa é do juiz, do gramado, da arbitragem, do calendário ou daquela bola que inexplicavelmente bateu na trave. Nos negócios, pode ser a volatilidade do mercado ou uma crise fabricada. Na vida profissional, pode ser alguém ou algo que nos perseguiu e nos prejudicou. Na política, foi a máquina da corrupção, a fraude eleitoral, a manipulação judicial, os adversários, a compra de votos, as alianças, as pesquisas, os prefeitos, enfim, sempre haverá uma explicação à mão.
É curioso que a vitória costuma ter dono, a derrota, quase sempre, procura um culpado.
Talvez por isso perder com dignidade seja uma das demonstrações mais difíceis de maturidade.
A democracia, assim como no Direito e n o futebol, depende de regras previamente estabelecidas. Entramos no jogo sabendo que podemos ganhar ou perder. É fácil considerar legítimas as regras quando vencemos. Quando perdemos, porém, passamos a identificar todos os defeitos do sistema.
Digo isso, também, por experiência própria.
Em 2010, fui candidato a deputado federal. Obtive 69.564 votos, dos quais 42.300 em Fortaleza. Não fui eleito, mas não procurei um culpado.
Não responsabilizei adversários, companheiros, eleitores ou circunstâncias. Se havia alguém a quem cabia examinar os erros daquela campanha, esse alguém era eu mesmo. Perdi porque tive medo de enfrentar o sistema e escolhi a coligação errada.
Uma escolha traça um destino.
O meu poderia ter sido outro se eu tivesse seguido a decisão do meu coração.
Essa reflexão me veio novamente à cabeça depois das recentes eleições para o Governo do Ceará. Diante da derrota, surgem explicações, acusações e tentativas de atribuir a terceiros a responsabilidade pelo resultado das urnas. É compreensível a decepção de quem perde uma disputa dessa dimensão.
Depois de uma campanha intensa, ninguém recebe uma derrota com alegria.
Pode até espernear.
O “jus esperniandi” continua assegurado pela velha jurisprudência bem-humorada dos estudantes de Direito.
Mas eleição não é apenas aquilo que os outros fizeram contra nós. É também aquilo que fomos, ou não fomos, de ter a estrutura necessária para chegar no eleitor e conquistar o voto.
O inconformismo procura explicações e justificativas para demonstrar por que o vencedor não deveria ter vencido. É aí que aquela velha expressão dos meus tempos de Faculdade de Direito deixa de ser apenas uma piada jurídica e se transforma numa pequena filosofia para a vida.
Todos nós temos o nosso “jus esperniandi”.
Perderemos causas. Perderemos eleições. Perderemos partidas. Perderemos oportunidades. E, muitas vezes, perderemos mesmo quando estivermos convencidos de que merecíamos ganhar.
Podemos reclamar. Podemos lamentar. Podemos até estribuchar.
Depois, porém, é preciso levantar.
Porque existe algo mais importante do que o direito de espernear: a sabedoria de reconhecer quando chegou a hora de parar de espernear e tocar a vida.
E talvez seja justamente aí que se revele a verdadeira grandeza do derrotado.
*Francisco J. Caminha
Advogado e ex-deputado estadual.