“E o Nordeste? Tinha virado quintal tecnológico. Nada de gente, cultura ou história. Um grande buffer energético: sol, vento, litoral e silêncio social convertidos em megawatts”, aponta o Professor Doutor Mauro Oliveira
Confira:
Fazia tempo que eu não tinha pesadelos.
Acordei suado no meio da noite, coração disparado feito sirene na véspera de uma invasão. Respirava com dificuldade, entre o fôlego tenso de Wagner Moura em “O Agente Secreto” e a inquietação silenciosa de Rodrigo Santoro, em “O Último Azul”, diante do futuro que nos espera.
O detalhe mais bizarro do pesadelo não era o território, mas a língua: eu já não conseguia falar português.
Pois é. À moda despótica de Wagner e Santoro, eu me via num Brasil onde tudo havia sido americanizado. Bandeiras estreladas ocupavam as repartições; retratos do Trump, nas paredes, fiscalizavam almas, dados e territórios. Um santo laico da nova ordem: padroeiro dos dados, do capital e da obediência.
E a Amazônia?
Esquartejada em powerpoints diplomáticos. Fatiada à régua geopolítica entre Estados, blocos e mercenários da cripto … seus “protetores naturais”.
E o Nordeste?
Tinha virado quintal tecnológico. Nada de gente, cultura ou história. Um grande buffer energético: sol, vento, litoral e silêncio social convertidos em megawatts para datacenters. Prédios sem janelas, sem rosto, sem idioma. Dados treinando modelos que jamais aprenderão a palavra sertão.
A comida oficial era tapioca de frango do KFC. Tradição “local”, garantia o folder. Culinária identitária com selo global, patrocinada por algoritmo e açúcar.
Eu tentava acordar daquela cruviana hipnótica, mas algo me segurava. Não era tanque, nem drone, nem embargo. Era promessa apocalíptica. Uma espécie de BET teológica da Igreja Universal em versão high-tech: paraíso garantido, soberania opcional, identidade exclusa no pacote … enquanto a sacolinha passava, no ritmo do Tim Tones.
Preso a este pesadelo colonial-tecnológico, eu me sentia um imigrante sem Green Card, tolerado enquanto útil, descartável quando inconveniente. Quanto mais tentava fugir, mais afundava no script de encomenda.
De repente fui “convocado”. Ai, ai, ai, ai, ai …
Diante de mim, tomava forma uma Resistência silenciosa, sem bandeira, sem líder, sem slogan. Apenas gente. Muita gente que ainda sonhava. Eles revelaram o que o sistema tentava esconder: aquilo tudo era um pesadelo. E a única forma de se libertar dele era ter um novo sonho.
Sim. Um sonho dentro do pesadelo.
Não um delírio confortável, mas um sonho com coragem, capaz de reaprender a própria língua, reapropriar-se da alma.
Fiquei mais aliviado … mas convocado.
Foi assim que saí do pesadelo.
Não por heroísmo, mas por um cutucão da minha neta.
— Vô, você tá delirando… tá dizendo que vai ser voluntário.
Abri os olhos ainda meio entre o Pesadelo e a Resistência.
— Voluntário de quê? — perguntei.
Ela deu de ombros, com aquela naturalidade cruel das crianças que enxergam o óbvio antes dos adultos:
— Sei lá… de salvar o mundo?
Levantei-me do sofá rindo, aliviado … mas “convocado”.
Percebi que o pesadelo tinha acabado, mas a pergunta, não.
E talvez seja isso mesmo.
O pesadelo termina quando a gente acorda.
O sonho começa quando a gente se pergunta, sem ironia nenhuma:
até onde se é capaz de ir?
Minha neta voltou a dormir tranquila.
Eu fiquei acordado … pensando!
O perigo não é o futuro incerto,
mas a ausência de sonho no presente!
Porque o verdadeiro risco não é sonhar demais:
é acordar … e continuar delirando!
Mauro Oliveira é PhD em Informática (Sorbonne University). Eletrotécnico (IFCE) com mestrado em Engenharia Elétrica (PUC-Rio). Ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Telecomunicações