“Não se trata de negar o valor da inculturação, princípio caro à tradição missionária da Igreja, mas de reconhecer que há uma linha tênue entre adaptar a linguagem e descaracterizar o sentido do sagrado”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
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Recentemente, ao participar de missas em Cracóvia, Milão, Florença, Roma e, inclusive, no Vaticano, chamou-me a atenção um traço comum às celebrações: a sobriedade. Não houve palmas. A música sacra era solene, normalmente executada por coros, com forte presença do repertório tradicional da Igreja, do canto gregoriano à polifonia clássica, e, sobretudo, com um claro sentido de transcendência. O ambiente favorecia a oração e a reflexão. Havia silêncio antes, durante e depois da celebração. A liturgia parecia conduzir naturalmente ao mistério.
A comparação com muitas realidades brasileiras suscita uma reflexão necessária. Em não poucas paróquias, a música assume caráter excessivamente ruidoso, com forte influência de estilos e instrumentos típicos da cultura popular contemporânea. Não se trata de negar o valor da inculturação, princípio caro à tradição missionária da Igreja, mas de reconhecer que há uma linha tênue entre adaptar a linguagem e descaracterizar o sentido do sagrado. Quando o espaço litúrgico perde a atmosfera de recolhimento, corre-se o risco de transformar a celebração em espetáculo. A influência da música mundana, quando não devidamente filtrada pelo espírito litúrgico, pode conduzir a uma espécie de “carnavalização” do ambiente sagrado, esvaziando sua dimensão contemplativa.
O Concílio Vaticano II, na “Sacrosanctum Concilium”, afirma que a música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver unida à ação litúrgica. A finalidade da música na missa não é entreter, mas elevar a alma, servir ao rito e expressar a fé da Igreja. O protagonismo não pertence ao grupo musical, mas ao Mistério celebrado. Nesse sentido, a tradição europeia, especialmente nas grandes cidades mencionadas, parece conservar com maior rigor a consciência de que a liturgia é, antes de tudo, culto a Deus e participação no sacrifício eucarístico.
Outro aspecto observado foi a discrição dos serviços auxiliares. Não se notavam vestimentas distintivas para leigos encarregados de funções litúrgicas, nem uma multiplicidade de ministros extraordinários da Sagrada Comunhão. Nas celebrações presenciadas, a distribuição da Eucaristia era realizada ordinariamente pelo sacerdote e, quando necessário, por ministros devidamente instituídos, de modo simples e sem qualquer destaque visual que os diferenciasse excessivamente dos demais fiéis.
No Brasil, ao contrário, consolidou-se a figura do “ministro da Eucaristia” com identidade própria e, por vezes, com sinais externos que o distinguem da assembleia. É preciso reconhecer que, em um país de dimensões continentais e com escassez de clero em muitas regiões, os ministros extraordinários desempenham papel pastoral relevante. Contudo, o caráter “extraordinário” do ministério não pode ser diluído. Quando o recurso excepcional se torna prática ordinária, altera-se também a percepção simbólica da centralidade do sacerdócio ministerial e do próprio mistério eucarístico.
Essas observações não pretendem idealizar a Europa nem desmerecer a vitalidade da Igreja no Brasil. Nosso país possui uma religiosidade vibrante, marcada por forte participação popular e por expressões culturais riquíssimas. Entretanto, vitalidade não deve ser confundida com agitação, nem participação com protagonismo individual. A liturgia não é criação da comunidade local; ela é patrimônio da Igreja universal.
Talvez o desafio brasileiro esteja em reencontrar o equilíbrio entre inculturação e fidelidade à tradição. O silêncio, a solenidade, a sobriedade e a beleza não são elementos acessórios, mas dimensões constitutivas da experiência do sagrado. Em um mundo saturado de ruídos e estímulos, a Igreja pode e, talvez deva, oferecer um espaço radicalmente distinto, um lugar onde o homem reencontra o Mistério, não pela exaltação dos sentidos, mas pela contemplação.
Redescobrir a força do silêncio litúrgico, a centralidade do altar e a função verdadeiramente sagrada da música pode ser um caminho fecundo para aprofundar a fé. A liturgia, quando vivida com reverência e consciência, não precisa de artifícios para tocar o coração humano. Ela mesma, na sua forma autêntica, já é beleza que salva, verdade que ilumina e mistério que transforma.
Barros Alves é jornalista e poeta