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“Lotearam as ruas e calçadas de Fortaleza” – Por Paulo Rogério

Paulo Rogério é jornalista.

“O espaço é público, diz a lei. Não ali. Tudo parece ser privatizado”, aponta o jornalista Paulo Rogério

Confira:

Andar pelas ruas de Fortaleza virou uma tarefa árdua. Uma missão que exige não só certo preparo físico e conhecimento cartográfico, mas também altas doses de paciência, equilíbrio corporal, visão aguçada e muita agilidade. Se você não está muito bem nesses requisitos, aconselho a nem se atrever em um passeio a pé pela cidade. Fique com seu carrinho no shopping ou nos Uber da vida.

Eu até entendo a questão da falta de emprego, da informalidade e da necessidade de as pessoas trabalharem. Mas é tanto camelô no Centro da cidade que é impossível andar sem ter que desviar de paus, roupas, sapatos e bonecas expostas nas tendas armadas nas calçadas. É fugir de uma cabeçada nas pernas do imenso boneco do poderoso Hulk e acabar chutando o tênis importado do Paraguai que estava equilibrado, milimetricamente, em uma caixa de som JBS – ou coisa similar.

Fui mostrar um pouco do Centro histórico de Fortaleza a uns parentes que estavam ”turistando” em casa – nessa época de janeiro é só o que aparece – e me envergonhei. Para sair da Praça José de Alencar em direção ao Cine São Luiz foi uma aventura. O labirinto de camelôs na rua Guilherme Rocha é imenso. Não dá nem para ver o céu, tamanha a quantidade de lonas armadas no local. Há a vantagem da sombra para todos, é verdade. Em compensação, não corre vento. É uma sauna gratuita; Falta só o vapor com aquele cheirinho de eucalipto. Quem é que vai parar ali para comprar algo? Pensei comigo mesmo. Deve parar, senão estava vazio o local.

O espaço é público, diz a lei. Não ali. Tudo parece ser privatizado. Bem pertinho, próximo dos Correios, lugares são delimitados com tinta branca no asfalto indicando o dono do pedaço. Está lá para todo mundo ver: Alexandre, Dona Fafá, Seu Antônio. Proprietários de espaços privilegiados para sua barraquinha de sei lá o que. E ainda tem os flanelinhas cobrando R$ 30, antecipado, para pastorar o carro em via pública. Quem controla esse loteamento? Não sei. Mas alguém deve estar ganhando. Dinheiro ou votos.

Há sinais que tentaram padronizar o camelódromo. Há tempos instalaram uma espécie de minúsculos quiosques, com personagens históricos do Ceara estampados nas chapas de ferro. Figuras como o jurista Clóvis Beviláqua, Tristão Gonçalves, José de Alencar, Rachel de Queiroz, estão lá, sorridentes, com seus feitos descritos para quem quiser ler. Isso se o manequim sem roupa não estiver na frente, impedindo qualquer leitura.

Meus convidados estranharam tamanha quantidade de ambulantes. Eu mesmo achei exagero. E tentei, com vergonha, desviar a atenção deles de outras visões nada convidativas como os colchões velhos, papelões e lixo jogados atrás das bancas que decoram a Praça do Ferreira, toda reformada, mas com os antigos problemas de sempre.

O pior é que outro espaço público atrativo, a Praia de Iracema também foi invadida por camelôs e outros personagens. Está cada dia mais difícil caminhar no calçadão do Estoril até a

Iracema Guardiã. A qualquer momento você pode ser atropelado por um skatista maluco, um patinador audacioso ou um patinete a toda velocidade. Isso sem falar nos ciclistas que decidiram fazer rali, impunemente, na calçada mesmo. E tem os camelôs das bebidas, a tia dos pratinhos, o dos churros chiques ou do sanduiche grego espalhados na calçada. E tome cheiro de gordura no ar.

Ver as ondas batendo nas pedras, nunca mais. Virou papo de saudosista.

Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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