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“Lula e o samba enredo: em vez de polêmica, ignorância e picuinha” – Por Valdélio Muniz

Valdélio Muniz é jornalista. Foto: Divulgação

“Uma parcela de políticos (e seus asseclas) se sentiu incomodada por achar que a homenagem configura propaganda eleitoral antecipada”, aponta o jornalista Valdélio Muniz

Confira:

Nada escapa numa polarização marcada, sobretudo de um lado, por ressentimentos e ódio irracionais. Nem mesmo o carnaval, expressão artística e cultural característica do Brasil e que, como tal, deveria estar livre de amarras tão ridículas. Esquece-se qualquer licença poética em nome de alimentar a picuinha como se fosse, de fato, polêmica e não expressasse, a rigor, completa ignorância.

Ora, não é de hoje que as escolas de samba no Brasil, seja no Carnaval do Rio, seja no de São Paulo (ou onde quer que elas existam e resistam), têm por prática escolher como tema de seus sambas-enredos e desfiles a história de vida e realizações de escritores, cantores e outros artistas, assim como divindades e orixás.

Tudo sempre foi permitido e aplaudido, servindo inclusive para melhor difundir personagens importantes do mundo da cultura, da televisão e das religiões por vezes desconhecidos ou não compreendidos em sua real grandeza. Opa, quase tudo, porque eis que o quadro muda de figura quando o escolhido é o presidente Lula.

Uma parcela de políticos (e seus asseclas) se sentiu incomodada por achar que a homenagem configura propaganda eleitoral antecipada, como se fosse, efetivamente, capaz de influenciar e interferir numa eleição de porte nacional marcada para acontecer ainda daqui a quase oito meses, quando efetivamente, a legislação entende razoável e suficiente que as campanhas ganhem as ruas, as telas da TV e as emissoras de rádio faltando apenas cerca de dois meses da eleição.

Francamente!

Achar que a homenagem prestada na Marquês de Sapucaí ao presidente da República, pela Escola Acadêmicos de Niterói, visa a desequilibrar a disputa parece mais uma demonstração de desespero misturada com uma prova de ignorância histórica e cultural.

Primeiro, porque os segmentos incomodados desconsideram que, divergências políticas à parte, a história de vida de Lula, em seus 80 anos completados em outubro último, é sim, merecedora de constar entre tantas já contadas no templo do samba.

Segundo, porque não é a Acadêmicos de Niterói a primeira instituição cultural a prestar seu reconhecimento ao presidente. Basta ler a notícia por Fernanda Otero e publicada em 27 de outubro de 2025, no portal Focus Brasil, da Fundação Perseu Abramo, para se ter uma ideia do quanto a trajetória de Lula já foi contada em produções literárias, documentários e filmes ao longo de mais de duas das últimas décadas.

Para refrescar a memória, lembremos que o menino que saiu de Garanhuns, no sertão Pernambuco, e se tornou líder sindical influente na região do ABC Paulista, já teve partes da sua biografia levada às telas em obras como “Lula, o filho do Brasil” (2009), de Fábio Barreto; “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho; “Intervalo clandestino” (2006), de Eryk Rocha; “Diário de Campanha” (2002) e “Entreatos” (2004), ambos de João Moreira Salles.

O político que fez parte da Assembleia Nacional Constituinte, contribuindo para que tenhamos hoje uma Carta Cidadã que é modelo de valorização da dignidade da pessoa humana para o restante do mundo, também foi retratado, vejam só, em seus momentos mais recentes (a partir da prisão ocorrida em 2018), por ninguém menos do que o cineasta norte-americano Oliver Stone no documentário Lula, que estreou no Festival de Cannes de 2024, e por Petra Costa, na produção “Democracia em Vertigem” (2019), indicado ao Oscar em 2020.

O dirigente partidário que, mesmo derrotado em três eleições presidenciais (1989, 1994 e 1998), não se furtou a concorrer e vencer outras três disputas (2002, 2006 e 2022), foi, ainda, biografado por Fernando Morais, um dos maiores escritores brasileiros. A obra “Lula” (2021, Companhia das Letras) teve inclusive tradução para vários idiomas. No mesmo ano, pela Fundação Perseu Abramo/Expressão Popular, John D. French, historiador norte-americano, publicou “Lula e a política da astúcia: de metalúrgico a presidente do Brasil”

O presidente que é respeitado e cortejado por todos os líderes de outras nações em quaisquer eventos internacionais de que participe também pode ter parte da sua história assistida em obras como “Looke: ABC da Greve” (1979), documentário de Leon Hirszman; “Mubi: o Processo” (2018), de Maria Augusta Ramos; “Querido Lula” (2020), que reúne cartas enviados a ele enquanto esteve encarcerado (editora Boitempo); “Lula, um operário na presidência” (1989), de Frei Betto (editora Rocco); e “Lula, o metalúrgico: anatomia de uma liderança” (1981), de Mário Morel (editora Paz e Terra).

Diante de tanta expressão e tantos reconhecimentos, mais do que o medo de desequilíbrio eleitoral decorrente de um simples desfile, a razão maior de todo esse mimimi vem do inconformismo de alguns com a relevância histórica e o simbolismo político-cultural-sindical que tem o presidente, inclusive extrafronteiras. Parece mais fácil, para alguns, insistir na tentativa (inútil) de descontruir a história alheia do que agir para tentar (em vão) construir uma história de si próprios que chegue ao menos perto de merecer tamanhas homenagens.

Ou será que, para eles, apenas torturadores e milicianos merecem ser exaltados?

Valdélio Muniz
Jornalista, analista judiciário, professor de Direito e Processo do Trabalho

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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