“Viver na rua tem riscos, e ele sabia. Protegia-se como podia. O que não imaginava era que o perigo viria justamente de quem tinha teto, comida e conforto”, aponta o coronel RR da PMCE, Plauto de Lima
Confira:
Andava errante pelas ruas daquela grande cidade. Comia o que encontrava. Ficava próximo a restaurantes e, ao remexer o lixo, quase sempre surgia um pedaço de carne esquecido, preso a um osso ou à gordura desprezada. Por segurança, limitava-se a um mesmo trecho da cidade. De tanto circular por ali, tornou-se conhecido por moradores e pedestres. Sempre dócil, caiu na simpatia de quem passava.
Chamavam-no de Orelha. Não se sabe por quê; o apelido virou nome. À noite, dormia sob lajes, tentando escapar do frio e da chuva. Sabia que adoecer era risco de morte e que a madrugada escondia perigos. Em seus olhos havia o vazio típico dos cães abandonados: parava, fitava o nada, como quem pensa, mas sem brilho algum.
Ninguém sabia sua origem. Tampouco se interessava. O Orelha estava sempre ali, servindo de distração. Às vezes recebia um carinho, um resto de comida, uma mão sobre a cabeça. O gesto vinha; o afeto não ficava. Nunca houve convite, nunca houve abrigo. A ideia de adoção era impensável. No máximo, uma volta curta, um afago rápido. O suficiente para provar, por instantes, o que seria um lar.
Viver na rua tem riscos, e ele sabia. Protegia-se como podia. O que não imaginava era que o perigo viria justamente de quem tinha teto, comida e conforto. Num dia de pouco movimento, foi acordado com um golpe no rosto. Arrastado pelas orelhas, levado a um local ermo, foi torturado por prazer. Pregos atravessaram seu corpo. Um foi cravado em seu crânio. Depois, o abandono.
No dia seguinte, ainda respirava. Foi socorrido. Entrou num hospital pela primeira vez. Morreu como indigente.
No noticiário, virou mais um caso. Nenhuma comoção. Nenhuma cobrança. Nenhuma indignação. Talvez fosse diferente se Orelha fosse apenas um cachorro. Haveria revolta, campanhas, protestos virtuais. Mas Orelha era mais um humano, um garoto errante pelas ruas, morto aos montes nas esquinas das grandes cidades. E humanos, sobretudo os invisíveis, já não comovem. A tragédia não é amar mais os animais, mas termos desaprendido a reconhecer humanidade nos próprios humanos.
Esse comportamento desequilibrado já vinha chamando minha atenção quando vi que um político defensor dos animais obteve votação expressiva em uma eleição, enquanto outro, defensor da vida humana, teve desempenho bem mais modesto.
Creio que adquirimos um gosto incurável pela desumanidade e adotamos a futilidade como hábito. Não que os animais sejam fúteis, mas o fato de querermos humanizá-los de forma insana.
Por mais afeto que se tenha por um animal, não podemos simplesmente substituí-lo por pessoas. Nada contra a proteção dos caninos, mas o exagero em querer transformar o animal em gente está se tornando patológico. É como se uma carência afetiva acelerasse esse comportamento descompensado. Afinal, quando o afeto ao animal se sobrepõe ao humano, algo não está em equilíbrio.
Preciso registrar que não tenho nada contra os bichos; sempre gostei de animais. Quando morava com meus pais, havia um cachorro chamado Lubi. Era vira-lata, desses sem pedigree e sem luxo. Vivia no fundo do quintal, comia o que sobrava das refeições, tomava banho quando dava. Nunca foi ao veterinário. Ainda assim, viveu mais de uma década. Era dócil, atento, fiel. Um cão.
Vez por outra me pego pensando nos tempos do Lubi com saudosismo. Não do Lubi em si, mas do que éramos. Havia menos zelo estético, menos afeto performático, menos culpa, e, talvez, mais humanidade.
Lembro do que disse Eduardo Dusek, ainda nos anos oitenta, em Rock da Cachorra:
“Seja mais humano, seja menos canino.”
Talvez não tenhamos ouvido. Protegemos os cães. Vestimos, perfumamos, mimamos. Enquanto isso, seguimos permitindo que Orelhas (crianças) durmam ao relento, comam restos e morram sem nome.
E isso diz muito menos sobre amor aos animais e muito mais sobre o abandono dos homens.
Plauto de Lima
Coronel Veterano da PMCE e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas