Com o título “Manifesto pelo desapego”, eis mais uma crônica da lavra de Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora.
Confira:
Promessas de organizar gavetas, guarda-roupas, prateleiras, separar roupas que não se usa mais, juntar eletrodomésticos e objetos com defeito para levar ao conserto geralmente estão na ponta da língua da maioria das pessoas a cada início de ano. Vão até para as novas agendas.
Com o passar dos dias de janeiro, as promessas vão sendo engolidas pelo cotidiano. As gavetas continuam desorganizadas, os papéis empilhados e tudo o mais permanece caminhando com as demandas, sem serem atendidas.
É como se a passagem simbólica de um ano para outro representasse uma obrigação moral de se organizar, ao mesmo tempo em que a mente cria mecanismos de autoenganação. Mas, a verdade é que não se muda nosso “modus operandi” somente porque o calendário deu sinais de fim e recomeço.
Tenho prestado atenção que quanto mais apostamos na pressão dos limites, para tentarmos colocar a vida em ordem, mais deixamos de buscar estratégias para alcançarmos as mudanças necessárias.
Exemplo: se apostássemos mais no desapego, deixaríamos de juntar o que não precisamos e teríamos espaço livre para organizar o que de fato precisamos. É este o ponto que quero chegar até para tornar reais as ideias de mudanças.
Com este objetivo, proponho que a principal auto promessa de cada um passe, antes de tudo, pelo desapego, pelo livrar-se do que já não é mais necessário. E, melhor, contribuir para que outras pessoas usufruam do que está parado nas nossas gavetas e prateleiras.
Quem sabe assim, ao final deste ano, teremos espaços e consciências com
menos coisas para organizar.
*Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora.