Por Dalwton Moura
Jornalisa e produtor cultural
Um poeta do Pantanal soprou o recado: “Bom é corromper o silêncio das palavras”. O sopro reverberou além e fez ninho dentro da cabeça de outro poeta, nascido e criado entre mares, dunas e áridos sertões do Ceará, Nordeste do Brasil. Marcus Dias escreveu “Salamandra” tomado pelo devir anfíbio de quebrar a casca das classificações, romper limites da imaginação e misturar receitas aparentemente prontas e acabadas, promovendo a simbiose entre tudo o que está vivo e pode ecoar entre ditos e escritos demasiado humanos.
No livro que, em si, é amálgama de crônica e poesia, um modo orgânico de enxergar e atritar-se com o mundo escorre entre páginas, mas também canta alto, ganhando voz e corpo. Por isso, “Salamandra” não poderia vir ao mundo senão em um formato híbrido: livro e canto enredados em um evento lítero-musical que confunde e celebra a pena do poeta/cronista e a verve melódica do compositor de letras e músicas já consagradas nacionalmente.
Com participação da Família Vilas Boas; do cantor, compositor e parceiro Isaac Cândido e da cantora Mariana Cavalcante, o lançamento do livro “Salamandra” é para ler, ouvir e sentir, tudo junto e misturado. O Banco do Nordeste Cultural abre as portas para o encontro entre literatura e música, na próxima quarta-feira, às 19 horas. Com banda-base formada por Lu D´Sosa na guitarra, Carolina Maia na bateria e Naiara Lopes no baixo, a noite de múltiplas linguagens artísticas também conta com a intervenção poética da produtora cultural e escritora Marta Pinheiro.
Ingressos gratuitos devem ser retirados no site/aplicativo Outgo. Também haverá distribuição de ingressos remanescentes momentos antes do show, de acordo com a capacidade do Teatro do Banco do Nordeste Cultural.
Recentemente a canção “Pequeno príncipe (O tempo mudou de lugar)”, de Marcus Dias, foi premiada no Festival Nacional da Canção, em Minas Gerais, o mais antigo e disputado do Brasil, com 56 edições realizadas. A canção foi interpretada pela Família Vilas Boas, que participa do lançamento do livro “Salamandra”, nesta quarta, no Banco do Nordeste Cultural.
“Em Salamandra, temos canaviais, barro, cachaça, quintais, bichos, rezas, assombrações e deuses. Yansã, Olorum, arcanjos e “gente inteira” convivem numa geografia onde o sertão encontra o apocalipse e onde o cotidiano pode, a qualquer instante, incendiar-se em símbolo.
Com Marcus Dias e sua salamandra – que, como se sabe, é um anfíbio e um dos bichos mais antigos da Terra – entramos em um território em que “a roda / girava, e girava e girava”, em uma cadência próxima à fala ritualística, ao repente ou ao discurso profético, sem promessa de descanso, pois estes poemas pedem travessia”, escreve o poeta, professor e pesquisador Alexandre Barbalho, assinando o prefácio do livro.
Mais sobre Marcus Dias
Nascido em Fortaleza, Marcus Vinicius Dias Sampaio formou-se em Letras (Português/Inglês) pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). A paixão pelas palavras e pela sonoridade o levou a compor canções e a realizar apresentações autorais a partir do final dos anos 1980. Sua escrita rapidamente chamou a atenção pela originalidade e pelo equilíbrio perfeito entre o lirismo poético e o olhar atento sobre o cotidiano urbano.
Com centenas de canções compostas ao longo de mais de quatro décadas, Marcus Dias é reconhecido como um dos importantes compositores da música do Ceará para o Brasil. Suas canções combinam humor, ironia, delicadeza e uma permanente inquietação diante da vida. Suas letras são povoadas por imagens inesperadas, personagens, pequenas histórias e grandes questões humanas, transitando com liberdade entre a canção popular, a poesia e a crônica.
Ao longo de sua trajetória, estabeleceu parcerias com importantes nomes da música do Ceará, entre eles Isaac Cândido, Pantico Rocha, Marcílio Homem, Rogério Lima, Ciribáh Soares e integrantes do grupo Luxo da Aldeia. Suas canções também foram interpretadas por artistas como Raimundo Fagner, Leny Andrade, Simone Guimarães, Claudio Nucci, além de talentos da cena cearense como Davi Duarte, Nayra Costa, Edinho Vilas Boas e Marina Cavalcante.
Entre suas canções mais conhecidas está “Os Bêbados”, composta ainda nos anos 1990 e posteriormente gravada por Isaac Cândido, tornando-se uma das músicas marcantes da cena autoral de Fortaleza. A obra de Marcus também se expandiu para o universo do Carnaval e da música popular de Fortaleza, com parcerias que resultaram em canções como “Um Sol Pra Cada Um”, “Serpentina” e “Ó, Linda Fortaleza”, em trabalhos ligados ao Bloco Luxo da Aldeia.
Sua parceria com o músico e produtor Pantico Rocha resultou em uma trilogia de discos – “O Barulho do Sol do Meio-Dia”, “Nem Samba, Nem Sandra, Nem Mar” e “Tudo que Passa é Permanente” -, consolidando uma produção autoral marcada pelo encontro entre poesia, música e experimentação.
A partir de 2019, após enfrentar e superar um grave Acidente Vascular Cerebral (AVC), o artista transformou a reabilitação em um potente processo de reconstrução pessoal e estética. Questões como o tempo, o corpo, a memória e a permanência ganharam a sua obra, empurrando a literatura para o centro de sua produção.
Disco coletivo premiado em 2020
Em 2020, Marcus lançou Lado a Lado, seu sétimo álbum, reunindo 11 canções inéditas e uma faixa-bônus. O projeto representou um momento particularmente importante de sua trajetória: pela primeira vez, assumiu diretamente diversas etapas da construção de um disco, da concepção e seleção do repertório à escolha dos intérpretes e acompanhamento dos arranjos. O álbum, com produção executiva do compositor cearense Dalwton Moura, reuniu parceiros e intérpretes de diferentes gerações da música cearense e foi eleito o melhor álbum do ano no Ceará pelo Prêmio Digital da Música Cearense;
Em 2023, publicou seu primeiro livro, “A Carne da Cidade”, ampliando sua presença no campo da literatura, com produção executiva de Marta Pinheiro e Sara Síntique. Em 2025, lançou “Minicrônicas Subversivas”, obra que reafirma sua vocação para uma escrita livre, provocadora e profundamente ligada à observação da vida e da cidade, com produção executiva de Elaine Negreiros e apoio de Vânia Vieira, Ethel de Paula, Paulo Fraga, entre outros. As capas de ambos os livros e do disco “Lado a Lado” são assinadas por Eduardo Freire, também responsável por um vídeo que se tornou um precioso registro, de Marcus Dias cantando e tocando ao violão a música “Pequeno príncipe (O tempo mudou de lugar)”.
Em 2026, ao lado de Isaac Cândido, apresentou “Sobre as Asas”, novo espetáculo dedicado à parceria artística construída ao longo de décadas.
É nesse percurso entre a canção, a poesia e a crônica que nasce “Salamandra”, seu novo livro. A obra chega como mais um movimento de uma trajetória que nunca se acomodou: um território de palavras, memórias, inquietações e imagens, onde Marcus continua investigando a condição humana e as marcas que o tempo deixa sobre as coisas e sobre nós.
Salamandra é, também, uma imagem de permanência e transformação. Como o animal mítico associado ao fogo, que atravessa as chamas sem desaparecer, o livro carrega a força de quem segue criando, reinventando-se e fazendo da palavra uma forma de resistência.
Marcus Dias escreve para dar forma ao que a vida deixa sem nome.
SERVIÇO
*Lançamento do livro Salamandra
Banco do Nordeste Cultural – Rua Conde D´Eu, 560, Centro
Ingressos gratuitos devem ser retirados no site/aplicativo Outgo. Também haverá distribuição de ingressos remanescentes momentos antes do show, de acordo com a capacidade do Teatro do Banco do Nordeste Cultural.