Com a temática “Mulheres em cena: das páginas escritas às que vivem nelas”, o 4º Colóquio da Biblioteca Pública Estadual do Ceará, a Bece, recebeu a professora e pesquisadora Luana Antunes, a artista e escritora Bárbara Kariri e Aline Bei, finalista do Prêmio Jabuti com a obra “Pequena Coreografia do Adeus” e também vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018 e do prêmio Toca, criado pelo escritor Marcelino Freire.
A importância da participação de mulheres na escrita literária norteou o evento, além da valorização da construção de personagens femininas. O colóquio foi um esquenta para a Bienal marcada entre os dias 4 e 13 de abril de 2025. “A BECE faz um trabalho contínuo para dar visibilidade à produção literária feminina que está em nosso acervo e que, muitas vezes, ainda é desconhecida do grande público, como também divulgar o trabalho de mulheres fomentando novas publicações. Estamos na quarta edição do colóquio. Precisamos ler mulheres de todos os tempos e que as mulheres também mostrem todo o seu potencial de escrita e de voz e que isso seja percebido em toda a sua diversidade”, explica Suzete Nunes, Superintendente da BECE.

Luana Antunes é escritora, pesquisadora brasileira especializada em literaturas africanas e afro-brasileiras. Doutora e mestre em letras é líder de um grupo de pesquisa sobre o corpo feminino. Suas pesquisas recentes se concentram no protagonismo de autoras negras na África global. “Na verdade, minha literatura nasceu da oralidade, das Histórias da minha avó, que nunca frequentou uma biblioteca. Minha avó nasceu livre, era uma mulher sábia que fugiu da seca. As histórias da minha avó me mostraram de onde viemos. Não havia livros na minha casa além da bíblia, mas a minha avó sempre me contou histórias. Ela me ensinou os caminhos da magia, que povoou meu imaginário, tanto que quando fui pra escola eu já sabia muita coisa. Esse sentido de pertencimento fez a diferença na minha vida. Na universidade, eu só tinha dois professores negros. Procurei mulheres negras na literatura. Tornei-me uma rebelde do sertão e da periferia que foi estudar grego antigo e francês. Fui à Moçambique, Antilhas e Portugal para entender como me coloco no mundo. Fui dos saberes de terreiro à pesquisa acadêmica. Não há lugar onde não podemos estar. Nós estamos no mundo, então, tudo do mundo nos interessa. Fico feliz em ver meu filho aprendendo a honrar a nossa ancestralidade”, emociona-se Luana Antunes.

Com uma fala forte e marcante, a artista e autora da obra “Poesia da Terra”, que será lançada na Bienal Internacional do Livro do Ceará, falou da escrita que ganha força a partir do corpo. Multiartista, Bárbara é atriz, performer, roteirista, pesquisadora e doutora em Artes. “As linguagens não têm arame farpado, mas possuem suas especificidades. Escrever é um lugar de alquimia. Fuxicar é uma tecnologia das comunidades. A palavra também é comunicação. Vejo a palavra como uma semente, um alimento, uma continuidade. A palavra é uma ação. A mulher que escreve tem com ela um lugar de dizer de muitas em um país que abafa vozes. Os microfones agora estão abertos para essas vozes saírem. É preciso parar para escutar as vozes dessas mulheres. Essa é a nossa delícia de se lambuzar do mundo. Há um chamamento! É importante recontar a história a partir das mulheres indígenas. A subjetividade é um lugar muito caro. Façamos uma torção nas narrativas ao trabalhar nossa autoestima pela escrita, pela palavra. As palavras são bancos de sementes e a leitura é uma oportunidade de escuta, escuta pela palavra. Escrita é testemunho!”, conta a artista que estreia na literatura com poesia que resgata memória do povo Kariri.

Formada em Letras e Artes Cênicas e pós-graduada em Escritas Performáticas, Aline Bei ganhou o Prêmio Toca, criado pelo escritor Marcelino Freire e escreveu, em 2017, seu primeiro romance, “O Peso do Pássaro Morto”. Com ele, foi a vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018, na categoria Melhor Romance de Autor com Menos de 40 anos. Em 2022, foi novamente finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e ficou entre os cinco finalistas do 64º Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário com seu segundo livro “Pequena coreografia do adeus” (Companhia das Letras, 2021). Com sua prosa poética, a autora narra a história de Julia Terra, trazendo à tona seus traumas, o abandono e lembranças de infância até a sua maioridade onde se encontra como escritora em meio a muitas reviravoltas.

“Pra mim, a escrita é artes plásticas também. Eu comecei no teatro e isso foi muito importante. Temos que usar as palavras que nos vestem, não dá pra escrever com as palavras que não temos. Letra e voz e corpo! Escreva com as suas palavras, não importa quais sejam! É preciso perder o pudor com a palavra! A escrita tem uma beleza que é até silenciosa”, explica Aline Bei.

Na ocasião, a escritora autografou livros dos leitores que também ganharam um abraço da autora. “Foi muito legal participar desse encontro de mulheres tão potentes, que têm uma voz na literatura. Eu, como jornalista e escritora, fico muito inspirada ao presenciar esses eventos que estimulam o processo de escrita — sobretudo a escrita feminina. Os livros têm o poder de nos marcar profundamente e são, talvez, o único momento em que não estamos recebendo nenhum outro estímulo visual. É uma atividade que nos permite ativar sentimentos, pensamentos e grandes reflexões”, conta Juliana Marques.

Camila Vieira tem um instagram literário destinado a refletir sobre obras e trajetórias de mulheres.”Ler mulheres é importante, pois muitas ainda são invisibilizadas. Precisamos descobrir essa literatura brasileira, contemporânea e feminina. A Aline Bei, por exemplo, escreve uma prosa poética e cria uma inserção de mercado. Vejo também as editoras mais interessadas em publicar mulheres, então, torço pra que cada vez mais mulheres ocupem esses espaços”, comenta Camila Vieira do instagram @literaturacomelas

Aproveitei a tarde inteira para desfrutar desse momento. Antes do colóquio, ouvi histórias de mulheres como Nise da Silveira, Marie Curie e tantas outras contadas pelas bibliotecárias da BECE que fazem um valoroso trabalho e foi quando eu entendi onde eu realmente deveria estar ali. Juntei-me ao grupo de estudantes da Unilab. Ninguém achou ruim sabe porque? A biblioteca é um lugar de acolhimento e boas descobertas. Que lugar, minha Gente! A BECE é um luxo só e faz você se sentir em casa. Fui ao setor de obras raras, de jornais e revistas, emocionei-me ao ver meu Mestre Gilmar de Carvalho eternizado no ambiente do cordel, fui interrompida quando conversava mais alto (psssiiiuuuu silêncio), vi meu livro na seção de obras de autores cearenses. Escutei Aline Bei citar Manoel de Barros e Clarice Lispector como referências e foi aí que descobri que temos muito em comum. Ela já foi uma autora independente que queria ser vista (assim como eu, hoje). Vi aquelas três mulheres, Aline, Luana e Bárbara falarem coisas que eu queria dizer e não sabia (que queria). Identifiquei-me com a potência da voz da Bárbara, firme, que não hesita em nenhum instante, que admite que as aulas de ortografias, cheias de regras, não eram tão interessantes como as de literatura, afinal, a Kariri sempre teve as próprias métricas, aquelas que aprendeu com seu povo. Ver a honra que permeia a fala da pesquisadora Luana Antunes me faz lembrar minha avó. Ela também não escreveu nenhum livro, mas fez história e me contou outras tantas que apreendi com toda a força do (meu) mundo. A oralidade também formou a minha escrita, afinal, somos feitos de histórias. Como diz Aline Bei em seu livro “Pequena Coreografia do Adeus”: “É uma pena que as nossas avós vão embora antes de nos tornarmos pessoas que sabem aproveitar uma conversa”.
Então, assim como Aline Bei, meu próximo livro também terá uma pitada de avó, um quê de Dolores, uma mulher forte, contraditória, decidida, misteriosa e … (impossível defini-la com quatro adjetivos).
Que dia, meus amigos, que dia!
Obrigada, BECE, obrigada Suzete, Ana Karine e Maura!