“Na economia da inteligência artificial, quem ainda terá o direito de ser sujeito?” – Por Washington Araújo

Washington Araújo é jornalista. Reprodução: Blogdoeliomar

“Proteção legal buscada por Matthew McConaughey dialoga com greves de Hollywood, contratos recentes e alerta que artistas podem virar modelos sem consentimento”, aponta o psicanalista e jornalista Washington Araújo

Confira:

No fim de novembro de 2025, a discussão sobre inteligência artificial cruzou definitivamente a fronteira do futurismo e entrou no terreno duro do direito. Escritórios jurídicos no Brasil e nos Estados Unidos passaram a tratar, de forma sistemática, a proteção da imagem, da voz e da identidade digital como extensão direta dos direitos da personalidade, dialogando com legislações como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e normas de propriedade intelectual.

O movimento não surgiu do nada: contratos passaram a incluir cláusulas explícitas contra o uso de voz e rosto por sistemas de IA, e disputas começaram a chegar às cortes. A identidade humana deixou de ser abstração filosófica e passou a ser objeto concreto de tutela jurídica.

É nesse contexto que a decisão de Matthew McConaughey de blindar legalmente sua imagem e sua voz ganha densidade histórica. Longe de um gesto excêntrico, ela se alinha a uma mudança estrutural na economia criativa global. Quando um ator sente a necessidade de se proteger preventivamente contra a replicação algorítmica de sua presença, o sinal é claro: o “eu” entrou no circuito de extração de valor tecnológico.

Entre maio e novembro de 2023, Hollywood viveu a maior paralisação trabalhista de sua história recente. As greves simultâneas do Sindicato dos Roteiristas (WGA) e do Sindicato dos Atores (SAG-AFTRA) envolveram mais de 170 mil profissionais e colocaram a inteligência artificial no centro das negociações.

É preciso destacar que nesse movimento não se discutia apenas remuneração, mas limites claros para o escaneamento de corpos, a reutilização de performances e a clonagem de vozes sem consentimento. Estúdios já testavam bancos de dados com figurantes digitalizados integralmente, pagos uma única vez para usos indefinidos. A fronteira entre pessoa e ativo começava a desaparecer.

A inteligência artificial não se contenta com registros isolados. Ela opera por absorção de padrões. Busca timbre, cadência, pausas, hesitações, microexpressões — tudo aquilo que constrói reconhecimento social.

Atenção! O risco contemporâneo não é o plágio clássico, mas a substituição funcional: quando a simulação se torna suficiente para dispensar o original.

Esse deslocamento foi acelerado por uma narrativa econômica sedutora. Relatórios como o da PwC estimaram, em 2024, que a IA generativa pode adicionar US$ 15,7 trilhões à economia global até 2030.

O número impressiona, mas oculta o custo humano da equação. Enquanto ganhos são amplificados, perdas de autoria, renda e controle avançam de forma difusa.

Os efeitos já são mensuráveis. Dados de órgãos de segurança nos Estados Unidos apontam que fraudes com clonagem de voz cresceram mais de 350% entre 2022 e 2024. Pesquisas acadêmicas indicam aumento de dependência emocional de sistemas ‘conversacionais’ entre adolescentes e idosos. A tecnologia avança mais rápido do que nossa capacidade social de metabolizá-la.

No campo cultural, o impacto é direto. A dublagem profissional caminha para uma extinção silenciosa. Estúdios já operam com a possibilidade de reproduzir a voz original de atores em múltiplos idiomas, com sincronização labial perfeita.

O ganho técnico é inegável. A perda simbólica também: desaparece uma cadeia inteira de trabalho criativo, substituída por síntese estatística.

A música oferece um precedente. Grandes gravadoras passaram a exigir contratos específicos para o uso de catálogos no treinamento de modelos de IA, após projeções indicarem que músicas geradas artificialmente podem representar até 20% do mercado global até 2028. O mesmo princípio precisa valer para o cinema. Imagem, voz e biometria facial não são dados neutros; são extensões do corpo.

Alguns governos entenderam isso antes de outros. Em 2025, a Dinamarca avançou com propostas legislativas que garantem ao cidadão controle pleno sobre sua identidade digital, incluindo rosto e voz, com sanções rigorosas contra usos não autorizados por sistemas automatizados. É uma inflexão relevante: tecnologia submetida ao direito, e não o contrário.

Nesse cenário, McConaughey não age por paranoia. Ele antecipa um conflito já em curso. Sem blindagem jurídica, o indivíduo deixa de ser autor e passa a ser insumo. A identidade vira infraestrutura. O humano, matéria-prima silenciosa.

Blindar-se da inteligência artificial não é rejeitar o futuro. É exigir que ele tenha regras. Porque, quando máquinas aprendem a nos imitar com perfeição, a pergunta decisiva deixa de ser técnica. Torna-se política: quem continuará sendo sujeito — e não apenas modelo treinado — na economia do amanhã?

Washington Araújo
Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com

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