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“Não somos heróis”

Plauto de Lima é coronel da reserva da PM e mestre em Planejamento de Políticas Públicas. Foto - Arquivo Pessoal.

“Em uma sociedade que trata o seu algoz como vítima, por que ainda nos surpreenderíamos com a indiferença da população pela morte daqueles que se dispõem a morrer para defendê-la?”, aponta em artigo o coronel Plauto de Lima. Confira:

Não somos heróis. Teve um tempo que pensei que éramos, mas não somos. Apesar do altruísmo nas nossas ações, não temos o reconhecimento da população. Quando morremos, só nossos colegas e familiares choram por nossa partida, a grande maioria da sociedade pouco se importa.

Não somos heróis, aliás nunca fomos. Criamos isso para nos iludirmos, uma espécie de sublimação coletiva inspirada na ficção que nos faz crer que estamos sendo importantes, mas estão pouco se lixando com às aflições que nos acometem. Morremos e seguimos para a vala do esquecimento. Alguém lembra o nome do último? Como ele foi morto? Quando? Não, não se lembra. Mas não se preocupem com isso, afinal não somos heróis.

Mas por que seríamos heróis? Em uma sociedade que trata o seu algoz como vítima, por que ainda nos surpreenderíamos com a indiferença da população pela morte daqueles que se dispõem a morrer para defendê-la? Vivemos em um país que o mal banal das pessoas é justificado pela desigualdade social, racial ou financeira. Segundo os seus defensores libertários, essas pessoas são vítimas da sociedade. Uma “verdade por autoridade” imposta por aqueles que militam por esses humanos e por seus direitos.

E se outro for morto? Se mais um filho ficar órfão? Se mais uma esposa ficar viúva? Não se preocupem, as nossas sirenes continuarão acionadas para atender os seus chamados. Apesar do olhar inquisidor dos trabalhadores acusadores, prontos para precipitadamente denunciar as nossas ações ou possíveis omissões, a postos para defender aqueles que nos atacaram, usando todos os meios para se mostrar e demonstrar que não somos heróis, correremos sempre na direção do perigo.

Esse é o nosso labor, imposto a esses servi publici, que se vestem iguais e andam disciplinarmente em ordem unida, vivem sem contemplação, são tratados com indiferença e morrem como um animal laboral. Fiquem tranquilos, estamos por aqui, somos muitos e não somos ninguém.

P.S. No ano de 2023, 161 policiais foram mortos no Brasil. Neste início de ano, quase uma dezena de policiais já foram mortos. Infelizmente, a tendência é que 2024 supere o número de mortos de 2023.

Plauto de Lima é coronel da Polícia Militar do Ceará e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas

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