Com o título “Narcoreligiosidade – Como o crime se apropriou de Deus”, eis artigo de Plauto de Lima, coronel RR da PMCE e mestre em Planejamento de Políticas Públicas.
Confira:
O Zoroastrismo é uma das religiões monoteístas mais antigas do mundo, surgida na Pérsia (atual Irã) há cerca de 3.500 anos. Foi fundada pelo profeta Zaratustra (Zoroastro) e ensina que o universo é um campo de batalha entre a Força do Bem e a Força do Mal. Seu lema é: “Bons pensamentos, boas palavras, boas ações.”
O Zoroastrismo defende um dualismo ético, mas não maniqueísta. Introduziu conceitos fundamentais para o Ocidente, como Deus único, Satanás como força do mal, céu e inferno e juízo final. Segundo essa tradição, “o mundo não é neutro: cada escolha ajuda o bem ou o mal”. Uma ideia que atravessou milênios e moldou profundamente o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, as três principais religiões monoteístas.
No final do século XIX, o filósofo Friedrich Nietzsche, por meio de seu livro Assim Falou Zaratustra, realiza uma crítica radical à religião cristã e à moral tradicional, apresentando uma visão desafiadora da condição humana em forma poética e alegórica. Ele escolheu Zaratustra justamente porque este teria sido, simbolicamente, o fundador da moral do “bem contra o mal”. Nietzsche queria que o criador da moral fosse também aquele que a destruísse.
Para Nietzsche, a moral judaico-cristã havia transformado o homem em um ser fraco, ressentido e domesticado. Ele via essa herança como oriunda do Zoroastrismo e transmitida à Bíblia. Por isso escreveu, em essência: “Se alguém deve anunciar o fim dessa moral, só pode ser Zaratustra.”
A inversão filosófica é profunda. Enquanto o Zaratustra histórico afirma: “Existe o bem e o mal. Escolha o bem”, o Zaratustra de Nietzsche declara: “O bem e o mal são invenções humanas. Crie seus próprios valores.” É uma reversão simbólica: o pai da moral anuncia sua própria morte. Nietzsche faz, assim, um gesto teatral e filosófico ao colocar o criador do bem e do mal para proclamar que eles deixaram de existir.
Mas quando o bem e o mal desaparecem, nada mais é sagrado; tudo se torna relativo, a verdade se dissolve e a culpa desaparece. Trata-se de uma das jogadas intelectuais mais ousadas da história, e uma das mais perigosas. Seu efeito é a formação de um ser humano sem freios morais.
Essa influência niilista infiltrou-se no Estado e alterou sua política de segurança pública. Até os anos 1980, o eixo era essencialmente zoroastriano, ainda que sem esse nome: “Há o bem e o mal. O Estado protege o bem e reprime o mal.” A partir dos anos 1990, sob influência acadêmica, jurídica e ideológica, essa lógica foi substituída por outra: “Não existe criminoso; existe vulnerável.” É Nietzsche aplicado ao Estado.
As consequências foram graves. O criminoso percebeu rapidamente a mudança e concluiu: “Se não sou mau, posso tudo.” Passou a reivindicar direitos, impor normas, controlar territórios e negociar com o Estado como ator legítimo.
Essa relativização moral ultrapassou o Estado e penetrou na religiosidade, dando origem à narcoreligiosidade no mundo do crime brasileiro. O chefe de facção percebeu algo tão genial quanto perverso: “O povo ainda acredita em Deus, mas já não acredita em moral.” Surge, então, uma fé sem exigência ética, uma mistura de linguagem cristã, símbolos bíblicos, culto, música gospel e oração com assassinato, tráfico, tortura e extorsão, sem culpa. Isso só é possível porque o bem e o mal foram relativizados.
A religião sempre esteve presente no universo criminal brasileiro. São Jorge, o cavaleiro guerreiro, e Ogum, sua contraparte afro-religiosa, sempre simbolizaram a devoção da bandidagem. Com o crescimento dos evangélicos (de 6,6% da população em 1980 para 26,9% em 2022) surge um novo tipo de criminoso: aquele formado em lares cristãos evangélicos, que rejeita santos e divindades tradicionais e substitui o Deus guerreiro do passado pelo “Deus dos Exércitos” das igrejas neopentecostais.
O novo “dono do morro” já não invoca São Jorge, mas o Cristo guerreiro e vitorioso. Assim nasce o bandido narcoreligioso.
O maior expoente dessa narcoreligiosidade no Brasil é o Terceiro Comando Puro (TCP), liderado por um pastor ordenado na Assembleia de Deus Ministério de Portas Abertas, no Rio de Janeiro, e facção rival do Comando Vermelho. O TCP marca seu domínio territorial com a frase “Jesus é o dono do lugar”, além do uso intenso de símbolos como a estrela de Davi e a bandeira de Israel.
O TCP não é apenas uma facção criminosa. É uma ordem moral paralela. Sua doutrina é simples: Deus está comigo; o inimigo é o mal; matar é justiça; a facção é a igreja. Trata-se do Zoroastrismo invertido. Antes: “Deus julga o mal.” Agora: “O líder é Deus.”
Por fim, fica o alerta às autoridades do Estado, às lideranças religiosas e à sociedade cearense: esse tipo de organização criminosa já está entre nós. Não se trata de episódios isolados a vandalização de templos em Maracanaú e os eventos pseudo-religiosos travestidos de “celebrações da paz”, como os recentemente realizados no bairro Pirambu, mas de uma estratégia deliberada de ocupação simbólica, territorial e espiritual por parte do crime organizado.
Enquanto o Estado insiste em relativizar a existência do mal, as facções o reconhecem, o estruturam e o instrumentalizam. E quando a violência é sacralizada, o poder público deixa de governar, e passa apenas a reagir.
*Plauto de Lima
Coronel RR da PMCE e mestre em Planejamento de Políticas Públicas.