“Natércia Pontes e a beleza estranha da desordem” – Por Mirelle Costa

Há escritores que organizam o mundo pela escrita. Natércia Pontes faz o contrário: escreve para mergulhar no caos.

A autora cearense, nascida em Fortaleza e radicada em São Paulo há quase três décadas, acaba de lançar Vida doçura, romance publicado pela Companhia das Letras e apresentado recentemente n’ A Feira do Livro, realizada no Estádio do Pacaembu. O livro chega cercado de expectativas e confirma uma das vozes mais singulares da literatura brasileira contemporânea.

Em passagem por Fortaleza para lançamento na Livraria Substância, Natércia falou com emoção sobre o retorno à cidade onde tudo começou.

“Mesmo que eu não viva aqui há 25 anos, aqui é meu berço. É onde eu aprendi a falar português, a escrever, a gostar de ler, a brincar com as palavras”, afirmou a escritora, surpreendida pelo acolhimento dos leitores cearenses.

Em Vida doçura, a protagonista Jocasta é uma escritora que vive isolada numa kitnet no centro de São Paulo. Entre pilhas de objetos, memórias fragmentadas e a tentativa de escrever um livro sobre a morte da mãe, ela desenvolve uma obsessão pela youtuber Jovana, personagem que encarna a perfeição digital: organizada, sorridente, cor-de-rosa e aparentemente feliz. O fascínio atravessa as telas e se transforma numa trama de suspense psicológico que investiga solidão, luto, memória e identidade.

A oposição entre as duas mulheres é apenas aparente. Afinal, o que Natércia parece perguntar ao leitor é até que ponto a vida organizada que exibimos ao mundo não esconde os mesmos vazios que tentamos ocultar de nós mesmos.

Com uma prosa que mistura humor, melancolia e estranhamento, a autora constrói uma narrativa em que a bagunça dos espaços físicos reflete a desordem emocional das personagens. Não por acaso, durante participação na mesa “Do Ceará ao Uruguai”, n’A Feira do Livro que aconteceu no Pacaembu, em São Paulo, ela definiu sua criação literária de forma reveladora: “Minha escrita é um processo de colagem”.

Talvez o aspecto mais interessante do romance esteja justamente na relação delicada entre experiência vivida e invenção literária. Natércia rejeita a curiosidade quase policial que muitos leitores têm diante da ficção contemporânea.

“Vejo que a importância que se dá, uma curiosidade mórbida talvez, a quanto há de veracidade no que está escrito é boba. Muitas vezes a ficção se comporta como realidade e a realidade como ficção. O que importa é a troca do leitor com o livro.”

A observação faz sentido diante de uma obra que nasceu de experiências profundamente pessoais, mas que jamais se reduz ao testemunho. O luto pela mãe, a infância, a solidão e os afetos aparecem transformados pela linguagem. O sofrimento vira literatura; a memória, invenção.

É justamente aí que reside a força de Vida doçura. Em vez de oferecer respostas, o romance nos convida a habitar zonas de desconforto. Entre a vida real e a vida encenada. Entre a lembrança e a fantasia. Entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que escondemos até de nós mesmos.

Ao final da leitura, permanece a sensação de que a literatura de Natércia Pontes continua fazendo o que faz de melhor: encontrar beleza nas ruínas, poesia na bagunça e humanidade nas imperfeições.

E talvez seja por isso que sua escrita, tão estranha e tão familiar ao mesmo tempo, permaneça ecoando muito depois da última página.

A escritora Natércia Pontes e a jornalista Paulla Pinheiro
Márcia Osório, Natércia Pontes e Sofia Osório

Natércia Pontes e o escritor Maurício Mendes
Os escritores Maurício Mendes, Glória Guará; eu, Mirelle Costa, Cami de Malta e o jornalista Jansen Lucas

Lançamento em Fortaleza

O livro Liderança Adaptativa — O Novo Código da Liderança na Era Digital será lançado em Fortaleza nesta quinta-feira (11), às 18h30, na FIEC. Coordenada pela psicóloga organizacional e mentora executiva Bianca Peixoto, a obra reúne textos de 23 coautores do Brasil, Portugal e Alemanha sobre os desafios da liderança em tempos de transformação digital, inteligência artificial e mudanças nas relações de trabalho. O evento contará com a participação do executivo da M. Dias Branco e escritor Yunare Marinho Targino, um dos autores do livro, além de convidados que participarão remotamente.

No capítulo assinado por Yunare Targino, o autor propõe uma reflexão sobre o desalinhamento entre pensamento, sentimento e propósito nas organizações contemporâneas, defendendo modelos de liderança mais humanizados. Segundo ele, “em um cenário marcado por inteligência artificial, excesso de informação, burnout e relações cada vez mais superficiais, precisamos refletir se estamos formando líderes preparados para desenvolver pessoas ou apenas para acelerar processos”. O lançamento ocorrerá no Auditório José Flávio Costa Lima, na sede da FIEC, na Avenida Barão de Studart, com entrada voltada para empresários, gestores, profissionais de RH e interessados no tema.

SERVIÇO

Liderança Adaptativa — O Novo Código para Gerir Pessoas na Era Digital

📅 11 de junho

🕕 18h30

📍 FIEC — Federação das Indústrias do Estado do Ceará

Avenida Barão de Studart, 1980 — Fortaleza/CE – Auditório José Flávio Costa Lima. Apoio: Câmara Brasil Portugal no Ceará e AD2M Comunicação.

Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.

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