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“Nem Atenas confiava totalmente nas urnas” – Por Plauto de Lima

Plauto de Lima e seus temas municipalistas. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Nem Atenas confiava totalmente nas urnas”, eis artigo de Plauto de Lima, coronel RR da PMCE e mestre em Planejamento de Políticas Públicas. “Arqueólogos encontraram centenas de ostraka com o nome de Temístocles já gravado. Muitos possuíam a mesma caligrafia, sugerindo que aliados de seus adversários preparavam previamente os pedaços de cerâmica para distribuí-los entre eleitores analfabetos ou indecisos. Pelo visto, a desconfiança em torno das urnas não nasceu nos tempos modernos”,m expõe o articulista.

Confira:

A democracia foi uma invenção ateniense surgida como reação aos modelos tirânicos e oligárquicos que dominavam a política da época. Coube a Clístenes, cerca de cinco séculos antes de Cristo, estruturar esse novo sistema de governo.

Naturalmente, como ocorre em quase toda transformação política, havia também interesses de manutenção de poder. Ainda assim, Clístenes construiu uma narrativa suficientemente forte para mobilizar a população: que o povo, demos, fosse investido do poder, kratos. Assim nasceu a demokratia ateniense.

Era uma proposta ousada para o seu tempo, radical até. Seus adversários reagiram com indignação e desconfiança, enquanto o povo via naquele sistema uma possibilidade inédita de participação política.

Com a democracia estabelecida, novos personagens passaram a ocupar o centro da cena política ateniense. Entre eles surgiu Temístocles, homem inteligente, ambicioso e extremamente habilidoso na arte de conquistar seus concidadãos.

Foi ele o responsável pela criação da poderosa esquadra naval grega que enfrentaria o gigantesco Império Persa de Xerxes I. Na histórica Batalha de Salamina, os gregos derrotaram os persas e impediram que Atenas fosse destruída. Temístocles transformou-se em herói, mas a democracia possui suas ironias: o homem que ajudou a salvar Atenas acabou expulso por ela e lançado ao ostracismo.

Aqui cabe uma pequena digressão sobre essa palavra tão utilizada nos dias atuais.

O ostracismo era uma ferramenta jurídica e política da democracia ateniense. Uma vez por ano, os cidadãos podiam votar para banir por dez anos qualquer homem considerado poderoso ou influente demais, alguém que pudesse ameaçar o equilíbrio democrático da cidade. Não se tratava de condenação criminal, mas de uma medida preventiva.

Os votos eram registrados em pequenos pedaços de cerâmica chamados óstraka. Neles, os cidadãos escreviam o nome daquele que deveria ser afastado da pólis.

Em uma dessas assembleias, os adversários de Temístocles conseguiram canalizar o desgaste provocado por sua personalidade arrogante e pelo temor de seu crescente poder político. O resultado foi seu exílio.

A história, porém, gosta de repetir certos padrões.

Observando o cenário político contemporâneo, percebe-se como democracias frequentemente se tornam reféns de lideranças que alimentam divisões permanentes para sobreviver politicamente. A polarização transforma adversários em inimigos e faz da tensão um instrumento de manutenção do poder.

Talvez o tempo, senhor silencioso da história, termine por conduzir também esses personagens ao inevitável ostracismo político, cabendo às gerações futuras julgá-los com mais serenidade do que seus contemporâneos.

Mas há um detalhe curioso, e profundamente atual, nessa história.

Arqueólogos encontraram centenas de ostraka com o nome de Temístocles já gravado. Muitos possuíam a mesma caligrafia, sugerindo que aliados de seus adversários preparavam previamente os pedaços de cerâmica para distribuí-los
entre eleitores analfabetos ou indecisos.

Pelo visto, a desconfiança em torno das urnas não nasceu nos tempos modernos.

*Plauto de Lima
Coronel RR da PMCE e Mestre em Planejamento de Políticas Públicas.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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