“O narcisista patológico geralmente faz uma dessas três coisas: se reinventa como vítima, implode em amargura ou busca um palco menor onde ainda pode ser o maior”, aponta o jornalista Norton Lima, Jr
Confira:
— Hey, tu não achas que essa movimentação do Cid revela que Ciro não será candidato a governador? Porque seria inadmissível para Cid Gomes não apoiar o irmão. Ia ser chamado de Caim Gomes.
— O que é inadmissível em política? Só ele tem as peças do quebra-cabeças que ele mesmo monta…
— Pra moral, ética, estética nordestina… Cid seria visto como um crápula, um psicopata etc ninguém ia querer mais conversa com ele, seria visto como uma conta bancária apenas… no Nordeste e no caso isso é fatal.
— Concordo. Mas… fatal é outra estória. Acho que Ciro não tem nenhuma vontade de voltar a 1990. Vc teria? Eu não. Alckmin não…
— O que acontece com um narcisista patológico quando vê todos os seus planos megalomaníacos virarem pó? Ele virou a imagem desse vazio existencial…
— Essa questão é a mais interessante. O narcisista patológico geralmente faz uma dessas três coisas. Ou se reinventa como vítima, inverte a grandiosidade, transforma a derrota em perseguição (me sabotaram, o sistema me destruiu). Ou implode em amargura. Ou busca um palco menor onde ainda pode ser o maior, o que o torna cada vez mais irrelevante enquanto ele mesmo não percebe. O Ciro parece estar preso num loop de ressentimento, mas ainda atento, sem quer pisar em um palco menor, escapando da irrelevância autogerada. Sobre o que você falou do Cid, o “Caim Gomes” faz sentido culturalmente no Ceará, onde a lealdade familiar ainda tem peso simbólico real. Mas… a política nordestina, não esqueça, tem uma tradição de dividir para cobrir todos os lados e depois se reencontrar.
— O dividir para governar.
— O Sarney fazia isso. Os próprios Gomes já fizeram variações disso. A questão é: Ciro ainda tem valor de troca? Se não tem, o Cid não perde nada pragmaticamente ao se distanciar e o custo moral ele pagaria em parcelas pequenas. Como dizem no bar, sairia na urina.
— Acho que o que você captou bem é o seguinte. Ciro não quer ser governador. Governar no nordeste é dizer não. Não dá, não tem dinheiro, não tem como etc. Isso não alimenta o ego dele. Ciro não quer ser governador, quer ser a sombra que assombra. E o problema é que só existe sombra onde há luz.
— A luz está no poste?
— Mas passa antes por um linhão…
Norton Lima, Jr é jornalista