Com o título “Nem todo cotovelo é o que parece ser”, eis o texto deste domingo de Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora.
Confira:
Cada palavra no seu galho. Me conscientizo disso a cada dia, nas mais cotidianas das conversas, nas trocas banais e nas sérias, mais ainda, entre as pessoas. Esta semana soube de uma situação que seria cômica (e foi) se não tivesse sido quase trágica.
Uma amiga, que tem o pai acamado há anos, chegou para uma vista e viu que os pés dele estavam inchados. Como nunca tinha visto este inchaço, procurou tirar as dúvidas com o médico que acompanha o idoso há anos. O médico
perguntou se aquela era mesmo a primeira vez, se não estava desde que passou a ficar mais tempo na cadeira de rodas.
Ela se certificou com o cuidador do fim de semana. Ele negou que fosse a primeira vez que os pés do paciente inchavam. Inclusive havia alertado o cuidador da semana. Estranhando não ter sido informada, assim que houve a troca de plantonistas, foi tomar satisfação.
– Mas, eu disse sim para a senhora.
– Não disse. Assim que sei de algo sobre a saúde do papai falo logo para o médico.
– Lembra aquela pomada para dor que tenho pedido para comprar? Pois é justo para o cotovelo dele.
– Mas o inchaço não é no cotovelo, é no pé.
– Então, o cotovelo do pé, a dobra da articulação.
Quando entendeu que o tal cotovelo era o tornozelo do pai, minha amiga só pensou em dar as informações corretas ao médico. Ele a tranquilizou. Não era caso de passar pomada para dor. Era típico de quando a pessoa não andava mais, pela dificuldade de circulação. Melhor colocar as pernas dele em um travesseiro, quando deitado, para que ficassem mais elevadas do que o resto do corpo.
Ela me mandou um áudio no WhatsApp contando esta história. Apesar de todo o sufoco que passou com a troca de palavras, foi impossível não rir. Agora, ao invés de perguntar pela saúde do pai dela, pergunto logo como estão todos os
cotovelos do homem.
*Ana Márcia Diógenes
Jornalista e escritora.