Com o título “Nenhuma toga é mais honrada que o suor de um trabalhador”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.
(O futuro julga aquilo que o presente demora a decidir)
Confira
“Entonces” pronto, bah!
Quem estou “julgando”?
Ninguém… ou, talvez, todos nós.
Esta é uma história de anjos. Nenhum deles com asas.
1. Um Anjo Cansado
Dia 2/set/2026, o Senado aprova a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sem a TERRABRAS, discutida em outros artigos.
Dia 3, um dia depois, uma empresa norte-americana conclui a compra da mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás. A única fora da Ásia capaz de fornecer em escala os quatro elementos magnéticos: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. US$ 2,8 bilhões.
Dia 16, esta política vira lei.
A lei criou a porta treze dias depois de o negócio já ter passado por ela. Afinal, esta lei cria um conselho com poder de homologar mudança de controle acionário de mineradoras de terras raras.
O negócio foi anunciado em 20 de abril. Quatro meses e meio antes da votação. Não houve sigilo, não houve surpresa, não houve manobra.
O Congresso legislou sobre soberania vendo um ativo estratégico mudar de controle. Em público. Com hora marcada.
O problema não foi o calendário.
Foi o ritmo. Um descompasso que atravessa governos, instituições e gerações.
2. O Anjo Torto
E o ritmo do outro lado não era apenas de mercado.
Em agosto, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos anunciou US$ 750 milhões para a estrutura montada especificamente para uma estrutura destinada a assegurar, por meio de um acordo de longo prazo, o acesso à produção da mina Pela Ema. Somados a outros compromissos, o conjunto chega a US$ 1,55 bilhão.
Não foi apenas empresa comprando empresa.
Foi um Estado agindo com orçamento de guerra diante de um país ainda construindo seus instrumentos de soberania.
Drummond avisou que alguns nascem desajustados na própria posição. O Brasil ainda ocupa nessa cadeia uma posição incômoda: dono da jazida, hóspede da decisão.
Direito adquirido. Ato jurídico perfeito. Tudo conforme “nos conforme”.
Nenhuma norma violada. Nenhum ilícito demonstrado.
E, no fim, o controle estratégico é de outro.
Ah… mas existe um tribunal muito mais antigo que qualquer Supremo. Não tem ministros, assessores, liminares nem pedido de vista…
Chama-se História.
3. O Anjo de Costas
Neste tribunal acontece uma coisa danada: o julgamento começa quando o réu já não está mais aqui para se defender.
Políticos passam. Juízes passam. Presidentes passam. Professores passam.
E, como diria Quintana, “… eu passarinho.”
Ficam as escolhas.
E, sobretudo, as consequências delas.
Walter Benjamin, em sua crítica à modernidade, olhou para o anjo de Paul Klee, o Angelus Novus, e enxergou nele o Anjo da História.
O anjo mantém o rosto voltado para trás, mas uma tempestade se prende às suas asas com tal força que ele não consegue mais fechá-las e o empurra para um futuro que ele encara de costas.
Onde nós enxergamos uma sequência de acontecimentos, ele enxerga os destroços que fomos deixando pelo caminho.
E Benjamin dá nome à tempestade: ela se chama progresso.
Décadas depois, Hans Jonas acrescentaria outra dimensão a essa inquietação com seu Princípio
Responsabilidade: as gerações futuras não participam das decisões do presente:
Não votam nas nossas eleições.
Não assinam manifestos.
Não entram com recurso.
Contra nós, não cabe liminar.
E convém dizer logo: o anjo não está no quadro de Klee.
O anjo é esta geração.
4. O Anjo no Amianto
Minaçu, norte de Goiás, nasceu do amianto. Tem nome de mina.
O pó branco pagou a escola, o posto de saúde, a igreja, a sorveteria da esquina.
E entrou no pulmão dos homens que o arrancaram da serra.
Em 2017, togas em Brasília decidiram que o amianto mata.
Estavam certas. A decisão foi justa.
Mas a história não termina aí.
O amianto mata. O desemprego também deixa destroços. Talvez seja justamente aí o anjo de Benjamin.
Dois anos depois, uma lei estadual autorizou a retomada da lavra em Goiás exclusivamente para exportação.
Em 2024, outra lei estendeu o prazo. A mina Cana Brava voltou a operar. O Brasil segue entre os maiores produtores mundiais de uma fibra que ele mesmo proibiu de usar em casa.
Proibido aqui. Vendido lá.
Enquanto escrevo aqui, o Supremo julga essa lei estadual. A maioria já se formou pela inconstitucionalidade. O que ainda se discute não é o mérito: é o prazo. Dois anos ou cinco, até que o veneno pare de embarcar.
Proibiu em 2017. Nove anos depois, ainda embarca.
O tempo das instituições não conseguiu acompanhar o tempo da vida.
5. O Anjo Rebelde
Não sei se é verdade, mas a parábola dispensa cartório.
Conta-se por lá que um trabalhador passou trinta anos varrendo o pátio da mineradora. Respirou o pó branco a vida inteira. Quando o tribunal fechou a mina, ele ficou com a tosse e sem o salário.
Anos depois abriram outra cava na mesma serra. Argila avermelhada agora.
Terras raras.
O homem foi ver. Perguntou ao engenheiro:
— Esse aqui mata?
— Não.
— E vai pra onde?
— Pra fora.
— E volta o quê?
O engenheiro não respondeu.
O homem cuspiu o pó da boca e disse:
— Nenhuma toga é mais honrada que o meu trabalho… E esse buraco aí é a mesma mina.
Ali estava dita, em uma frase, a coisa inteira.
E vale um acórdão.
Inteligência Artificial parece morar nas nuvens.
Não mora não. Mora em datacenters… que precisam de chips… que precisam de minerais. Minerais precisam de território.
E território tem dono, memória, povo e futuro.
De repente, soberania digital deixou de ser apenas uma discussão sobre dados.
Chegou ao subsolo.
Se “datacenter sem contrapartida é pau-brasil com ar-condicionado”, então “terra rara sem retorno é pau-brasil enterrado”.
A lógica permanece assustadoramente parecida:
Tiramos a riqueza daqui. Agregamos valor lá. Compramos de volta.
E chamamos isso de modernidade.
6. Dou Minha Palavra de Anjo
Seria injusto dizer que nada mudou.
O país começou a reagir, e numa direção importante.
O Brasil criou sua Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Fundo garantidor, crédito fiscal vinculado a valor agregado em território nacional, conselho ligado à Presidência.
Não é pouco.
Mas dois detalhes merecem ser ditos em voz alta.
O primeiro: a TERRABRAS ficou fora do texto aprovado pela Câmara. Criamos instrumentos para controlar a cadeia sem criar uma empresa nacional para atuar diretamente nela.
O segundo é uma palavra.
O setor pressionou e “prévia anuência” virou “homologação”.
Anuência é antes.
Homologação é depois.
Às vezes, a soberania de um país cabe no espaço entre duas palavras.
E aqui a história de datas do começo deixa de ser anedota.
Os treze dias deixam então de ser apenas calendário. Viram metáfora.
Capital é bem-vindo. Datacenters são bem-vindos.
Mas existe uma pergunta que deveria estar escrita na porta de toda negociação estratégica brasileira:
— Que pedaço do futuro ficará aqui?
Quando entramos numa universidade e perguntamos “que pedaço do futuro é teu, Universidade?”, não estamos falando apenas de computadores.
Estamos falando de responsabilidade histórica.
Uma universidade que assiste ao futuro passar pela janela também fez uma escolha.
E uma sociedade distraída também escolhe… por omissão.
7. Os Anjos Sabiam?
Sabíamos.
Essa é a parte incômoda.
Um dia não estarão mais aqui os ministros, presidentes e parlamentares desta geração.
Não estará este professor que escreve estas linhas.
Outros jovens estarão aqui. Sentados nas nossas cadeiras.
Usando tecnologias que hoje sequer sabemos nomear.
E talvez encontrem uma fotografia amarelada desta geração.
Ian McEwan imaginou algo parecido em “O Que Podemos Saber”. Em 2119, num mundo marcado pela catástrofe climática, um professor procura nos rastros do nosso tempo compreender quem fomos.
E, por trás dessa procura, a pergunta que não quer calar:
Eles sabiam?
Sabíamos.
Políticos, juízes, presidentes, professores… nós passamos.
A História fica.
E quando chegar a nossa vez de sermos julgados por ela, não haverá liminar.
Nem pedido de vista.
Nem recurso.
Só aquilo que fizemos.
E aquilo que, podendo fazer, deixamos de fazer.
Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.