Com o título “Névoa da Guerra”, eis artigo de Vanilo de Carvalho, advogado e mestre em Negócios Internacionais. “Se o futuro permanece envolto em incertezas, a ruptura com o passado recente é inequívoca: o mundo, sob múltiplas dimensões, já não é o mesmo”, expõe o articulista.
Confira:
O sistema internacional atravessa um momento de inflexão histórica no qual a única certeza empiricamente verificável reside na ruptura com o arranjo de poder que predominou no período pós-Guerra Fria. O relativo equilíbrio que sustentou a chamada ordem internacional
liberal, embora marcado por assimetrias estruturais, encontra-se em processo acelerado de erosão, dando lugar a um cenário de elevada incerteza estratégica. Tal contexto remete àquilo que Clausewitz já identificava como a “névoa da guerra”, agora transposta para o plano
sistêmico das relações internacionais, no qual a previsibilidade das ações estatais se reduz drasticamente.
Nesse ambiente, consolida-se o retorno do realismo político, tanto em sua formulação clássica quanto em suas versões neorrealistas. Conforme argumenta Hans Morgenthau (2003), a política internacional é regida pela luta pelo poder, sendo ilusória a pretensão de subordinar os interesses nacionais a princípios morais universais. De forma complementar, Kenneth Waltz (1979) sustenta que a estrutura anárquica do sistema internacional condiciona o comportamento dos Estados, levando-os a priorizar a sobrevivência e a maximização de suas capacidades relativas. Assim, observa-se o enfraquecimento das normas multilaterais e o ressurgimento de práticas imperiais como instrumentos legítimos de projeção de poder.
A Federação Russa, sob a liderança de Vladimir Putin, constitui um exemplo emblemático dessa dinâmica. O discurso político do presidente russo expressa uma clara nostalgia imperial, ancorada tanto na memória do Império Czarista quanto na experiência soviética. Tal narrativa
revisionista alinha-se ao que John Mearsheimer (2014) denomina “realismo ofensivo”, segundo o qual grandes potências tendem a buscar a hegemonia regional sempre que dispõem de condições materiais para fazê-lo. A invasão da Ucrânia representa, nesse sentido, uma
manifestação clássica de guerra interestatal, marcada pela violação explícita da soberania nacional e pelo desprezo às normas do direito internacional. Ao reivindicar direitos históricos, culturais e estratégicos sobre territórios pertencentes a um Estado soberano, a Rússia rompe
com princípios centrais da ordem liberal pós-1945, prolongando um conflito que já se estende por quatro anos sem solução definitiva.
Paralelamente, observa-se uma inflexão significativa na política externa dos Estados Unidos durante o novo governo de Donald Trump. A tradicional autoimagem norte-americana como defensora da democracia liberal e da ordem internacional baseada em regras — descrita por
autores como John Ikenberry (2011) — cede espaço a uma postura unilateralista, revisionista e abertamente transacional. Declarações e iniciativas envolvendo reivindicações territoriais, como aquelas relativas à Groenlândia, ao Golfo do México e ao Canadá, bem como ações
coercitivas que desafiam normas jurídicas internacionais, como o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, indicam uma ruptura com o liberalismo institucional que historicamente orientou a política externa norte-americana. Tal comportamento reforça a tese de que até mesmo o principal arquiteto da ordem liberal pode tornar-se seu principal agente de desestabilização.
A esse cenário soma-se a ascensão da República Popular da China, cuja projeção imperial ocorre prioritariamente por meio de sua extraordinária capacidade econômica, tecnológica e produtiva. Joseph Nye (2004) observa que o poder contemporâneo não se limita à dimensão militar, incorporando elementos de soft power e interdependência econômica. Ainda assim, no caso chinês, essa expansão econômica tem sido acompanhada por crescente assertividade geopolítica, especialmente no Extremo Oriente. As pressões sobre Taiwan, a Malásia e outros territórios estratégicos da região refletem uma estratégia gradual de consolidação de hegemonia regional, em consonância com a lógica realista de competição entre grandes potências.
Dessa forma, o sistema internacional encontra-se imerso em uma fase de transição caracterizada pela erosão da ordem liberal, pelo retorno da política de poder e pela intensificação da rivalidade entre Estados centrais. Como adverte Samuel Huntington (1999), períodos de transição sistêmica tendem a ser marcados por instabilidade, conflitos e redefinições identitárias profundas. Ainda que os contornos da nova ordem global permaneçam indefinidos, os sinais empíricos indicam um mundo mais fragmentado, menos previsível e estruturalmente mais conflitivo. Se o futuro permanece envolto em incertezas, a ruptura com o passado recente é inequívoca: o mundo, sob múltiplas dimensões, já não é o mesmo.
*Vanilo de Carvalho
Advogado e mestre em Negócios Internacionais.