Com o título “Nuvens carregadas voltam a ameaçar a democracia”, eis a coluna “Fora das4Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Há poucos dias, um pré-candidato voltou a levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas, repetindo alegações amplamente investigadas e desmentidas por autoridades eleitorais, especialistas e organismos independentes. Não se trata, em verdade, de debate legítimo sobre aperfeiçoamentos do sistema, mas da tentativa de semear a desconfiança onde não existem provas que a sustentem”, expõe o colunista.
Confira:
Estamos ainda no período das convenções partidárias com vistas a definir as candidatutas para o pleito de outubro, apesar de as campanhas estarem nas ruas com seus arroubos discursivos. E são esses arroubos que começam a gerar preocupação diante do que começamos a assistir com o reaparecimento de roteiro conhecido e preocupante. Antes mesmo da disputa ganhar corpo de forma oficial, surgem discursos cuidadosamente construídos para lançar dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral, em clara estratégia que já demonstrou seu potencial destrutivo.
Há poucos dias, um pré-candidato voltou a levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas, repetindo alegações amplamente investigadas e desmentidas por autoridades eleitorais, especialistas e organismos independentes. Não se trata, em verdade, de debate legítimo sobre aperfeiçoamentos do sistema, mas da tentativa de semear a desconfiança onde não existem provas que a sustentem.
A experiência recente deveria servir de alerta. Em 2022, o mesmo discurso foi alimentado de forma sistemática, criando ambiente de radicalização que culminou nos lamentáveis atos de 8 de janeiro de 2023.
A invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes não nasceram do acaso. Foram precedidas por campanha persistente de desinformação que buscou desacreditar o resultado das urnas e enfraquecer a confiança da população nas instituições democráticas. O desfecho conhecido foram centenas de pessoas responsabilizadas criminalmente por seus atos.
Isso deveria iluminar como lição, mas não é o que estamos ver ser esboçado de maneira ardilosa por candidatura que se utiliza de método rasteiro disseminando a mentira para confundir seus adeptos tresloucados.
A democracia não pode conviver com a banalização da mentira como instrumento político. Divergências fazem parte da vida pública, assim como críticas às autoridades e aos governos. O que não se pode admitir é a fabricação deliberada de suspeitas contra sistema eleitoral que, ao longo de décadas, garantiu alternância de poder e reconheceu vencedores dos mais diversos espectros ideológicos, inclusive legitimando mandatos há anos, dos que agora se voltam contra o modelo, sem questionar a lisura dos votos que receberam.
Também parece haver quem não tenha compreendido recado importante dado nos últimos anos, qual seja, a de que as instituições brasileiras não se curvam a ameaças, sejam elas internas ou externas. O Estado Democrático de Direito mostrou capacidade de reagir às tentativas de ruptura e de responsabilizar aqueles que ultrapassaram os limites da legalidade.
A estabilidade política de uma nação depende, antes de tudo, da confiança de seus cidadãos nas regras do jogo. Quando líderes optam por desacreditar essas regras sem apresentar provas consistentes, não atacam apenas adversários. Colocam sob suspeita a própria democracia e alimentam ambiente de insegurança institucional que afasta investimentos, divide a sociedade e enfraquece o país.
O Brasil tem desafios muito mais urgentes do que revisitar fantasmas superados. A eleição deve ser o momento do confronto de ideias, da apresentação de propostas e da disputa por projetos para o futuro. Quem pretende governar país continental como o nosso, precisa convencer pelo argumento, e não pela insinuação. A democracia brasileira pagou preço alto demais pelas aventuras do passado para permitir que as mesmas nuvens carregadas voltem a encobrir o horizonte, ainda mais quando se sabe a quem servem esses falsos salvadores da pátria.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.