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“O bê-a-bá dos datacenters: o Manual do Zeca”; a Taboada da Dorinha!” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira é PhD em Informática por Sorbonne. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “O bê-a-bá dos datacenters: o Manual do Zeca”; a Taboada da Dorinha!”, eis mais uma colaboração de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

Confira:

Num país ainda marcado pelo velho “complexo de vira-lata” quando o assunto é CT&I,  prospera o “entusiasmo do colonizado”, sempre pronto a importar certezas e a desconfiar do que lhe é próprio. Este “narcisismo às avessas” (Nelson Rodrigues) tem “astravancado o pogressio” (Coronel Ludugero).

Pra embolar mais ainda o meio de campo, a polarização política virou o Biotônico Fontoura (só entende essa quem é do século XX… rsrs) das discussões nacionais: serve para tudo, resolve nada.

Nesse ambiente, o debate público empobrece. Qualquer opinião que escape ao script da torcida organizada passa a ser tratada como afronta. Discordar virou sinônimo de ser “do outro lado”. Perdemos a sutileza das diferenças. Confunde-se crítica com oposição, oposição
com hostilidade … e o contrário com o inverso, distinções básicas que a pressa ideológica atropela.

O fato é que precisamos reaprender a dialogar, como na Padaria Espiritual (1892), o movimento literário de Antônio Sales, no Ceará, que antecipou o espírito irreverente e nacionalista da Semana de Arte Moderna de 1922. Os “padeiros” cearenses usaram a ironia, o deboche e a defesa da cultura local para romper com o academicismo, influenciando o ideário modernista brasileiro.

Pois bem, precisamos voltar a ser uma sociedade capaz de manter a amizade mesmo diante das diferenças. Divergir não deveria romper laços. E, para não dizer que não falei de flores, é com esse espírito de diálogo que chegamos ao debate sobre datacenters de IA ao Brasil.

Sobre a chegada recente deles no Brasil, causa-me espécie (pense numa expressão chata) ver a defesa de boas negociações e governança confundida com resistência ao desenvolvimento. Como se discutir regras, contrapartidas e interesse público fosse estar “do outro lado”.

Confunde-se crítica com oposição (é o contrário com o inverso… rsrs) quando, na verdade, é justamente o debate qualificado que fortalece decisões.

É aí que vem a salvação em dois novos mandamentos: na leitura do “Manual do Zeca Tatu” (informação internacional) e na “aritmética de Dona Dorinha” que, na “ponta da língua”, cobrava a Taboada (KPI – Key Performance Indicators), artefato desaparecido depois que a uma “rapadura eletrônica” substituiu a “régua de cálculo” na Escola de engenharia no Benfica (anos 60). “By the way”, um estudo de Havard (pelo óbvio, poderia ter sido na Escola de Dona Terezinha de Seu Lauro, em Itapipoca) mostra que o raciocínio lógico entrou em decadência, desde então.

Para avaliar “de vera” as vantagens e os riscos dos datacenters, basta só combinar então ensinamento do Manual do Zeca (informação) e a tabuada da Dona Dorinha (KPIs). Primeiro entender, depois calcular. Sem isso, a gente é enrolado pelos gringos.

É o que faz o SABIÁ (Soberania e Autonomia Brasileira em IA), em sua página 42 (https://maurooliveira.blog/0-datacenters/). O livro traz um conjunto de métricas e KPIs que nos ajudam a não dar uma de “abestado da nova colonização digital”.

Segue, portanto, um resumo (o velho “bizu” de Curso de Redação do professor Myrson Lima para o vestibular) de algumas métricas capazes de despertar em nós o espírito negociador do Mercado São Sebastião. Aquele faro prático que sabe pesar, comparar e pechinchar, mas que
costuma “desanuviar” quando a novidade chega embrulhada do “sul maravilha”, ao som de Jorge Ben Jor, ou no discurso salvacionista do norte trumpiano, sempre pronto a aplicar a lei de “Chico de Brito” para gerir o mundo… enquanto pode.

1. Métrica: FLOPs/ano (FLOPs – Floating Point Operations/ ano)
Dimensão: Técnica / Infraestrutura
Expressa a produção computacional anual do datacenter

2. Métrica: PUE (Power Usage Effectiveness)
Dimensão: Sustentabilidade / Energia
Quantifica a “perda” de energia na infraestrutural do datacenter.

3. Métrica: WUE (Water Usage Effectiveness)
Dimensão: Sustentabilidade hídrica
Quantifica a intensidade hídrica, condicionando o impacto territorial e a sustentabilidade.

4. Métrica: REF (Renewable Energy Factor – CO₂/kWh)
Dimensão: Energia / Política
Expressa o nível de descarbonização expressando o uso de energia renovável

O exemplo a seguir, usando a KPIs, mostra uma das vantagens ambientais de datacenter no Nordeste, além da abundância em energia limpa:

a) Datacenter nos EUA de 10 MW (24×7), matriz fóssil (0,5 kg CO₂/kWh)
Energia anual: 10 MW x (365 dias x 24h) = 87.600.000 kwh
Emissões: 87.600.000 x 0,5 kg CO₂/ano = 43.800.000 kg = 43.000 t/ano (poluição)

b) Idem no Nordeste do Brasil: 100% renovável (PPA solar/eólica).
Emissões: 87.600.000 x 0,0 kg CO₂/ano = quase nulos (sem poluição)

Conclusão:

Em reunião com um Grupo de Trabalho (GT) para debater Datacenter de IA no Brasil, criado pela Sociedade Brasileira de Computação (04/jan/26), lançamos três propostas para avalição do GT:

• 1) Mobilizar e qualificar o debate público e acadêmico sobre os impactos sociais, econômicos, ambientais e territoriais da Inteligência Artificial e dos datacenters, promovendo seminários, ciclos de estudos e fóruns permanentes em todas as universidades brasileiras;

• 2) Estruturar Grupos de Trabalho interinstitucionais nas capitais e principais polos urbanos do país, reunindo universidades, governos, setor produtivo e sociedade civil para formular diagnósticos regionais, métricas e propostas de governança para infraestruturas críticas de IA;

• 3) Elaborar e entregar aos presidenciáveis, parlamentares e demais candidatos um Manifesto Nacional sobre IA e Datacenters, consolidando diretrizes técnicas e políticas para soberania digital, desenvolvimento sustentável e formação de talentos, nos moldes do documento já encaminhado ao Governo do Ceará.

– Mantra da proposta: Datacenters são uma grande oportunidade de desenvolvimento econômico para o país, desde que venham acompanhados de contrapartidas sociais, investimento em CT&I e respeito aos acordos ambientais.

Cientistas, gestores e estudantes não podem ficar alheios ao debate sobre a IA, essa onda que não é uma onda, uma transformação da sociedade que “não tem volta” e já começa a redesenhar o trabalho, a educação e a própria economia.

Datacenter é negócio, não encantamento tecnológico. Se não soubermos exatamente o que estamos vendendo (ler o manual, fazer as contas, entender as métricas) vamos vender mal.

Imagine o inverso (ou o contrário … rsrsr): nossas “rapaduras tecnológicas” chegando ao Alasca. Ali, cada cláusula seria negociada e a governança tratada como regra básica do jogo.

Pode apostar que eles estariam negociando cada cláusula, defendendo seus interesses e exigindo governança. Nada de excepcional. É assim que funciona o mercado, a bolsa e o escambau: cada um cuida do que é seu.

Sem conhecer, a gente vende barato o que vale caro. Quem não mede, acaba pechinchando contra si mesmo. Por isso, antes de enxergar oposição onde há cuidado, vale fazer o básico: ler o Manual do Zeca, puxar a tabuada da Dona Dorinha e colocar as contas na mesa. Só assim a negociação deixa de ser fé e vira estratégia.

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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