“O Brasil Carece de um Transformador Imponderável Sociopolítico” – Por Francisco Lima Filho

Francisco Lima Filho é mestre em Economia pela PUC de São Paulo. Fotot: Arquivo Pessoal.

Com o titulo “O Brasil Carece de um Transformador Imponderável Sociopolítico”, eis artigo de Francisco Lima Filho, mestre em Economia pela PUC-SP e ex-secretário-executivo da Secretaria Extraordinária de Inclusão e Mobilização Social do Estado do Ceará. “A eleição presidencial que se avizinha, também destinada a escolha de governadores e parlamentares, bem poderia ser uma oportuna ocasião de pronunciada reflexão social, bem deveria ser um momento de depuração política, estivéssemos nós persuadidos por crescente e cívica maturidade democrática”, expõe o articulista.

(Náufragos do negacionismo, sequer intuem a direção das braçadas)

Confira:

O conturbado clima político atravessado pelo Brasil, revestido que é de irracional agressividade, chega a apresentar conotação fratricida. Desse quadro conflituoso, nada emerge como indicativo de uma síntese capaz de apontar para o equacionamento dos nossos perenes problemas políticos e socioeconômicos. Tal situação, longe está de se limitar a dissensos minimamente civilizados que possam evoluir motivados a objetivar consensos nacionais em torno da superação dos desafios amiúde diagnosticados.

A eleição presidencial que se avizinha, também destinada a escolha de governadores e parlamentares, bem poderia ser uma oportuna ocasião de pronunciada reflexão social, bem deveria ser um momento de depuração política, estivéssemos nós persuadidos por crescente e cívica maturidade democrática.

Essa ausência de cônscia maturidade sociopolítica, alcançando diversamente representantes e representados, desvirtua a perspectiva de real criticidade dos fatos e das ações de interesse público, submetidos a aparência divulgada, comprometendo as condições necessárias para processos administrativos mobilizados em virtude de um forte sentimento coletivo que vise edificar um justo projeto nacional de sociedade.

Por conseguinte, as distorções se avultam. Inegavelmente, daí resulta o Brasil como uma sociedade brutalizada, constrangida pela violência, sujeita a enfrentamentos em seu cotidiano que não podem ser compreendidos desassociados da perversa e estrutural desigualdade social que se reproduz à exaustão, na medida em que dela mais são uma óbvia consequência, com indicadores sobradamente conhecidos,
conformando um vergonhoso contexto que historicamente se arrasta.

Embora o país, mais que ocasionalmente, tenha passado por períodos de melhoria macroeconômica, com acentuados registros de crescimento da economia, tais períodos, todavia, dada a modelagem adotada, não sedimentaram impactos promotores de mudanças que se prestassem a favorecer a população mais desassistida e excluída, de modo a deflagrar um outro processo de reprodução social.

Em largo juízo, o presidente Getúlio Vargas, não obstante as restrições e críticas feitas ao Estado Novo, foi o grande estadista brasileiro, no sentido de claramente protagonizar um projeto de nação direcionado à obtenção de mais equilíbrio social, ideal este sempre intransigentemente torpedeado, sempre sujeito a ordenados ataques tendo por alvo lideranças pertencentes ao campo da esquerda democrática, sejam as que em tempos idos o buscaram obstinadamente, sejam as que hoje pretendem retomá-lo, admitindo conceitualmente haver nova realidade.

Eis o que verdadeiramente falta ao país, um projeto de sociedade, fundada em uma democracia substantiva, que tenha por fio condutor princípios de equidade para aplainar oportunidades e assegurar, em harmonia ao preceituado no artigo 3º da Constituição Federal, meios que façam aflorar uma ambiência de justiça que a todos possa realmente alcançar, de tal maneira a se tornarem princípios fortemente
entranhados no imaginário da população brasileira.

De toda forma, esse fio condutor há de orientar-se por notórios, por difundidos ideais, ademais, precisa apoiar-se em ampla pressão social não difusa, conduzida em paralelo com o que de pleno dispomos das melhores experiências e expertises nacionais.

Frente aos descompassos políticos com os quais nos deparamos no Brasil, sem que se firmem definições objetivando um inclusivo projeto de sociedade, havendo travas impeditivas de mudanças situadas sobretudo no Congresso Nacional, ao tempo em que temos uma população politicamente vulnerável, suscetível ao falsear das pregações moralistas, vistas nas disputas eleitorais, com elites dirigentes, em geral, alheias ao trato das questões estruturais do país, possuidoras de perfil egoísta ou de condutas que abrangem a canalhice, sou então dado a crer que carecemos ser bafejados pelos sortilégios do frescor de ventos que nos tragam um imponderável sociopolítico.

Nessa quadra da história, para enfrentarmos essa situação, empunharmos essas expectativas e despertarmos esses contidos ideais, o mencionado imponderável seria termos a fortuna de vermos surgir não um pretenso salvador da pátria, mas lideranças políticas, algumas, ou mesmo que seja uma grande liderança capaz de galvanizar, por toda a geografia humana brasileira, intensos e nítidos sentimentos de redesenho da sociedade, sentimentos esses que se interpenetrem vindos de todas as classes e setores de atividade, que se nutram vivamente tomados por um nacional desejo, expresso na exigência de fecunda transformação de natureza política, econômica e social do país.

É um sonho, sim! Ainda que com pronunciada dose de ceticismo, diante do que presenciamos, já se vão décadas, mas é um sonho alimentado pelo que podemos enxergar de grandes e inequívocas possibilidades das quais dispõem o território e a própria nação brasileira.

Garimpando um tênue veio de esperança, um fugidio otimismo, quem sabe e por que não, surja e prevaleça a desejável e tão necessária transformação social advinda desse imponderável sociopolítico?

Isso acontecendo plenamente, emergirá outra sociedade, mais atenta. O obscurantismo, visto à solta na desinformação, na manipulação, no preconceito e no negacionismo, sairá de cena e, por certo, cederá espaço a uma progressiva retidão política, à consolidação democrática e ao curso de um desenvolvimento inclusivo.

*Francisco Lima Filho

Mestre em Economia pela PUC-SP e ex-secretário-executivo da Secretaria Extraordinária de Inclusão e Mobilização Social do Estado do Ceará.

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