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“O Brasil está perdendo o DNA?” – Por Maria Thais Arruda

Maria Thais Arruda é profissional de Educação Fisica e psicóloga.

Com o título “O Brasil está perdendo o DNA?”, eis artigo de Maria Thais Arruda Cavalcante Campos de Andrade, profissional de Educação Física e Psicóloga. “Perdemos nas oitavas não por falta de talento. Perdemos porque criamos uma geração órfã de pai, órfã de rua, órfã de erro”, expõe a articulista.

Confira: 

Caímos nas oitavas. De novo, cedo. E lá se vão vinte e quatro anos sem título. Tempo suficiente para nascer e crescer uma geração inteira que nunca viu o Brasil ser campeão do mundo, uma geração que só conhece essa camisa pesando mais do que jogando. Eu nem ia escrever. Porque tudo virou um grande comércio. Mas eu amo os esportes. De menina que sempre estava dispensada das aulas de Educação Física à professora de Educação Física, posso dizer que este mundo salvou parte da minha vida e, para a outra parte, abriu muitas portas. Além do mais, tenho um cantinho no coração que gosta de saber que somos a “Amarelinha”, a ” Seleção Canarinho”.

Eu nasci em 80. Passei pela Copa de 82 sem entender direito, mas a primeira que lembro de ter assistido foi a de 86. E que memória! Muita emoção, e um clima de alegria. Alegria de rir junto, torcer junto. Estávamos eu, meus irmãos, meus pais, na casa de um primo da minha mãe também com sua família. Todos reunidos em torno de uma TV de tubo, várias garrafas de cerveja e petiscos feitos em casa. Crianças pelo chão. E entre uma brincadeira e outra a gente copiava os afetos dos adultos: gritava, franzia a testa, roía as unhas. A amarelinha era o orgulho. A paixão. Ver Zico, Sócrates, Careca, Júnior, Falcão, Alemão era sentir o orgulho de mostrar ao mundo o “molho” brasileiro. A ginga. O improviso. Aquele olhar, o sorriso só nosso.

Onde está esse DNA hoje? A gente até marca alguns gols. Tem drible aqui, velocidade ali. Mas o que marca a diferença? Brasil não faz nada diferente. Entra em campo igual a qualquer outra seleção europeizada. O improviso virou erro. A ginga virou falta de tática. E como fazer diferente quando a formação é industrial? A gente exporta menino com 16 anos. Linha de produção. Passa na fábrica, carimba o passaporte e despacha para Europa. Volta jogador funcional. Volta atleta. Volta pronto para o sistema. E a base, a escola de base, é o puro desmonte.

É aqui o que mais preocupa, porque se rompeu a transgeracionalidade. Antes o pai ensinava o filho a bater falta no quintal. O avô contava do gol de 70. O mais velho do rachão mostrava ao mais novo como dar um chapéu sem humilhar. Isso era transmissão. Era o simbólico circulando de corpo em corpo. Hoje não tem mais isso. As crianças não têm mais o prazer de brincar, de estar juntas, de errar e superar. Não tem mais rua. Tem peneira. Não tem mais rachão. Tem teste. O erro não é mais aprendizado, é corte. O prazer foi trocado pela performance.

E é nesse lugar que mora a morte do simbólico. Quando você mata o simbólico, mata o pai, mata a história, mata o mito. Sem pai, a criança não herda, ela copia. Sem mito, o desejo não é mais o de “ser como o Zico”. O desejo é apenas o de ser um “jogador caro”. E ser um
jogador caro gera uma experiência de vida barata. Porque vida barata é vida sem jogo, sem invenção, sem tempo perdido. É a vida do menino que aprendeu cedo demais a dar certo e nunca aprendeu a cair e levantar.

Mas nesses dias, navegando pela internet, vi um vídeo que me fez brilhar os olhos e aquecer a alma. Vi um pouco de mim nele. Por coincidência, o nome do menino é Pedro. Nome do meu filho.

No vídeo, o pai pergunta:

Pai: Você está perdendo tempo pintando esta bandeira, gastando tinta. E se o Brasil perder?

Criança: Eu não estou perdendo tempo, porque não estou fazendo pra vender. Estou sendo brasileiro.

Pai: E se o Brasil perder?

Menino: Se o Brasil perder, eu vou continuar sendo brasileiro. Brasileiro até morrer.

O pai insiste:  O que você vai fazer, então, se o Brasil perder?

Menino: Então eu pinto mais!!

Ali estava tudo. Ali estava o que a gente perdeu. O simbólico vivo. O desejo que não depende de taça. O orgulho que não é produto. É ser.

Daí vem a ascensão da produção em massa. A rodo. Produto para vender igual, copiado e com data curta de validade. Agora não é mais ginga. É marcar. É “bet”. É uma imagem que movimenta muito dinheiro. Meia que pensa é caro de manter. Driblador que arrisca é risco
para o clube. Então a gente fabrica o jogador que não erra. E quem não erra, não cria.

Fabricamos jogadores descartáveis. Valem enquanto rendem. Quando estragam, trocam-se. Igual a produto de prateleira.

Sobre o futebol brasileiro, ele está morrendo no meio do caminho entre a TV de tubo de 1986 e o catálogo de hoje. Morrendo quando trocamos a transmissão pela transação.

Quando trocamos o desejo de jogar pelo desejo de ser vendido. Perdemos nas oitavas não por falta de talento. Perdemos porque criamos uma geração órfã de pai, órfã de rua, órfã de erro.

E enquanto a formação continuar industrial, enquanto a base continuar em desmonte, os 24 anos vão virar 30. Porque título se ganha com taça. Mas DNA se herda. E a gente parou de herdar.

Ainda bem que tem um Pedro por aí pintando a bandeira.

*Maria Thais Arruda Cavalcante Campos de Andrade

Profissional de Educação Física, psicóloga/psicanalista.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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