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“O Cabaré da Nancy” – Por Francisco J. Caminha

Francisco J. Caminha foi deputado estadual. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “O Cabaré da Nancy”, eis mais um conto da lavra de Francisco J. Caminha.

Confira:

Os fatos narrados a seguir ocorreram no começo da década de 1970, em Tauá quando a cidade ainda era pequena o bastante de forma que quase todo pecado tinha testemunha.

A cidade se dividia em dois mundos muito bem arrumados. Havia o mundo da praça da igreja, onde os homens defendiam a moral cristã e havia o mundo da noite, onde esses mesmos cidadãos, já sem o paletó da respeitabilidade, iam aliviar as urgências da carne no famoso Cabaré da Nancy.

Nancy Muniz Gama chegara das Alagoas no final dos anos 50. Pequena no corpo, mas grande no comando, começou seu empreendimento alugando duas casas de um senhorio conhecido por Chico Pomba. Depois que prosperou no negócio, construiu sua sede própria na parte leste da cidade.

Foi mulher de riso largo, fala firme e juízo prático. Sabia receber um fazendeiro, conter um bêbado, proteger uma moça, cobrar uma conta atrasada e encerrar uma confusão antes que a faca brilhasse. Tinha, como poucas, o dom de governar o pecado com mais ordem do que muita autoridade governava a cidade.

O Cabaré da Nancy não foi apenas um prostíbulo perdido no sertão. Foi quase uma instituição cívica, um parlamento noturno dos Inhamuns, onde coronéis, comerciantes, políticos, fazendeiros, médicos e juízes faziam acordos comerciais e políticos sentados lado a lado, unidos democraticamente pela música alta e por generosas doses de Cuba Libre, Campari, Rum e cerveja.

A festa ficava por conta dos músicos tauaenses: Pedro Cego, Manuel Cabaré, Chico Cabaré, Chico Bombeiro, o grupo Os Calangos, Os Catitas e tantos outros que atravessavam a madrugada arrancando das sanfonas, violões e pandeiros a alegria possível de uma terra dura.

Quando não havia música ao vivo, a radiola assumia o governo da noite com Bartô Galeno, Fernando Mendes e Waldick Soriano, esses ministros da dor de cotovelo, da traição bem cantada e da lágrima que desce misturada com álcool.
Era um festival permanente de bebida, paixão, ciúme, riso e gozo.

Nancy era respeitada na cidade. Administrava seu negócio com seriedade, gerava empregos, atraía visitantes, fazia circular dinheiro e mantinha uma ética profissional curiosa: dentro do cabaré havia mais respeito do que em muita repartição pública. Ali, pelo menos, ninguém fingia ser santo. E isso, convenhamos, já era uma forma de honestidade.

Em Tauá, dizia-se que batizado, casamento e primeira ida ao cabaré eram praticamente os três sacramentos da vida masculina. Nenhum rapaz era oficialmente reconhecido como homem feito enquanto não tivesse sido visto, pelo menos uma vez, no Cabaré da Nancy.

Foi nesse ambiente telúrico, quente, musical e moralmente contraditório que aconteceu o episódio que vamos narrar:

Entre os frequentadores mais ilustres estavam dois homens poderosos. De um lado, um médico renomado, respeitado, caridoso, desses que atendiam rico e pobre com a mesma atenção. Durante o dia, salvava vidas no hospital. Aparecia sempre no Cabaré da Nancy com a naturalidade de quem entra numa sala de visitas. Receitava ali mesmo uma Benzetacil para combater certos “esquentamentos” adquiridos no exercício imprudente da alegria, sem perder a postura, enquanto segurava um copo de rum.

Do outro lado, estava o coronel, comandante das operações especiais do Exército na região, em pleno governo militar. Homem de fala curta, bigode disciplinado e olhar duro. Não conversava: determinava. Não pedia: ordenava. Parecia ter nascido de botas, farda e regulamento.

Um dia, os dois passaram a disputar a atenção da mulher mais bonita da casa: Dalila. Foi nessa noite de calor abafado, quando a radiola gemia na voz de Bartô Galeno e os ventiladores apenas espalhavam o suor pelo salão, o coronel ficou furioso quando Dalila deixou sua mesa e caminhou em direção a do médico.

Pouco depois, os dois homens se estranharam. Dalila correu para proteger o médico e Nancy acalmou a situação. O coronel compreendeu que perdera a disputa e no sertão saiu do cabaré furioso.

No dia seguinte, com a honra ferida e o orgulho sangrando por dentro, o coronel reuniu um pequeno pelotão de soldados. Homens armados com revólveres e escopetas subiram nos jipes e seguiram pelas ruas empoeiradas até a casa do médico.

No dia seguinte, o coronel foi na residência do médico armado até os dentes, escoltado por um pequeno pelotão de sodados. Bateu fortemente à porta e quem apareceu foi a esposa que uma mulher altiva, valente e destemida. Ela já conhecia a vida boêmia do marido e algumas já havia pessoalmente resgatando-o no cabaré.

O coronel apresentou-se:

—  Quero saber se seu marido está em casa.

Ela respondeu com serenidade:

— Não está.

O coronel apertou os olhos.

— E onde posso encontrá-lo?

— Coronel, meu marido só pode estar em três lugares.

Fez uma pausa.

Os soldados esperaram.

— Primeiro, pode estar no hospital, onde trabalha.

Outra pausa.

— Segundo, pode estar na fazenda.

O coronel continuou imóvel.

Ela então completou:

— Terceiro, se não estiver nem no hospital nem na fazenda, pode procurar no Cabaré da Nancy.

Foi como se uma bala invisível atravessasse a autoridade do coronel. Sem dizer uma palavra, virou-se e partiu.

O militar fez buscas e não conseguiu localizar o médico, nem mesmo no Cabaré da Nancy.

O Cabaré da Nancy continuou funcionando por muitos anos. Vieram outras músicas, outros homens, outras mulheres, outras bebedeiras, outras mentiras e outras verdades.

E foi assim que aquela casa, chamada por alguns de antro de perdição e por outros de repartição secreta da alma humana, entrou definitivamente para a mitologia dos Inhamuns. Porque ali, entre o rum, o bolero e a poeira, Tauá aprendeu uma verdade que não cabia no sermão do padre, nem no boletim do quartel:

A moral pública é apenas uma roupa bem passada.

*Francisco J. Caminha

Advogado e ex-deputado estadual.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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