Com o título “O Carnaval é a festa da transgressão, sim”, eis título da coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “(…) o carnaval sempre foi crítica social travestida de festa, escárnio dos falsos moralistas e ironia contra a hipocrisia dos “puros”, expõe o colunista.
Confira:
O Carnaval é, e continuará sendo, graças a Deus, a grande festa da transgressão moral. Não como desordem vazia, mas como rito simbólico de libertação coletiva, onde o indivíduo se mostra mais próximo de si mesmo, e não apenas instrumento a seguir papéis ordenados por uma sociedade que precisa conservá-lo dócil e inofensivo para satisfazer suas (dela) necessidades. O carnaval, nesse sentido, desde sua gênese, nasce como espaço do povo para rir do poder, inverter hierarquias e ridicularizar a falsa solenidade dos dominantes.
Ainda na Babilônia, as Sacéias eram uma celebração em que um prisioneiro assumia, durante alguns dias, a figura do rei, vestindo-se como ele, alimentando-se da mesma forma e dormindo com suas esposas. Outro rito característico era realizado pelo rei no período próximo ao equinócio da primavera, um momento de comemoração do ano-novo na Mesopotâmia, quando no templo de Marduk (um dos primeiros deuses mesopotâmicos), o rei perdia seus emblemas de poder e era surrado na frente da estátua de Marduk. Essa humilhação servia para demonstrar a submissão do rei à divindade. Em seguida, ele novamente assumia o trono.
Já à luz da “conserva cultural”, conceito de Jacob Levy Moreno, criador do psicodrama, o carnaval rompe padrões cristalizados, abrindo espaço ao novo, ao espontâneo, ao vivo. É o oposto da repetição automática dos comportamentos impostos. Carl Jung, por sua vez, considera que as máscaras não escondem, mas revelam, liberando os conteúdos reprimidos do ser humano, deixando-os vir à tona, ainda que sob forma lúdica. Por isso, o carnaval sempre foi crítica social travestida de festa, escárnio dos falsos moralistas e ironia contra a hipocrisia dos “puros”.
Hoje, o nosso tempo está a conviver com a insurgência de uma moral artificial, alimentada por algoritmos que sedimentam ideias e moldam consciências. Esse fenômeno, que é mundial, produziu no Brasil aberrações cognitivas visíveis, com gente prestando continência a pneu, rezando para disco voador, defendendo boicotes absurdos a chinela e negando a ciência na pandemia. Expressões de uma fé política sem razão e sem pensamento crítico.
Neste ano, felizmente, as ruas mostraram outra coisa. Nos blocos, nas praças e nas festas populares, vimos resistência viva. Uma sociedade que não aceita ser manipulada pela hipocrisia travestida de moral. Que não se curva ao discurso de ódio travestido de liberdade de expressão. O carnaval segue sendo território de crítica, riso, corpo e liberdade. Espaço onde o povo fala, ainda que em fantasia. Onde a transgressão é linguagem política.
E a alegria, um ato de resistência.
Assim, permanece como rito coletivo de recomposição simbólica, onde a cultura popular reinscreve sentidos e reconstrói identidades. Um tempo social em que a norma perde rigidez e o humano se afirma. Onde o corpo vira discurso e a rua vira ágora. Onde a crítica não precisa de púlpito, precisa só de batuque, voz e presença. Viva e que venham os próximos carnavais, porque este ano foi massa.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.
Ver comentários (1)
Perfeito.
Lamentavelmente alguns seres supremos querem ser superiores e tentam proibir até mesmo humoristas de mostrar seus dons.
Raul Seixas e Paulo Coelho viram discos voadores, uns admiram pneus (seria transgressão?) e outros aceitam que aqueles que desviaram recursos públicos e até confessaram estejam livres, aceitando até mesmo que um CEP pode contribuir para livrar a cara de uns.