“O Carnaval é político” – Por Oliveiros Marques

Oliveiros Marques é sociólogo

“Na abertura do Grupo Especial, a Sapucaí reafirmou o Carnaval como espaço de disputa simbólica, memória e posicionamento político”, aponta o sociólogo Oliveiros Marques

Confira:

O primeiro dia de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro deixou uma mensagem cristalina na Avenida: o Carnaval é, sim, um território político. Não político-partidário no sentido estreito que os legalistas moralistas de ocasião tentam reduzir, mas político na sua essência mais profunda – a disputa por memória, narrativa e futuro.

Houve quem fingisse surpresa. Como se o samba-enredo tivesse nascido neutro. Como se a Marquês de Sapucaí fosse apenas um palco de plumas e paetês. Mas o que se viu foi o óbvio ululante: cultura popular é linguagem de posicionamento.

A estreia da Acadêmicos de Niterói foi explícita. Ao afirmar que “em Niterói o amor venceu o medo” e ao ecoar o brado de que não há espaço para anistia aos que atentaram contra a democracia, a escola trouxe para a avenida o sentimento de uma parcela significativa da sociedade brasileira. Não se tratou apenas de uma homenagem; foi um recado. Em tempos de revisionismo conveniente, lembrar que o amor venceu o medo é reafirmar que a escolha democrática tem lado – e consequência.

A Imperatriz Leopoldinense também desfilou posicionamento ao celebrar a trajetória de Ney Matogrosso.

Ney nunca foi apenas intérprete: foi afronta estética e política. Em plena ditadura, subiu aos palcos com corpo pintado, voz aguda e liberdade desafiadora. Era, como bem lembrou o enredo, o poema que enfrentava o sistema, a língua no ouvido de quem ousasse censurar. Ao trazê-lo para o centro da narrativa, a Imperatriz reafirmou que arte que incomoda é arte necessária.

A Portela, por sua vez, lançou luz sobre o batuque e a população afrogaúcha – tantas vezes empurrada para a margem por uma tentativa persistente de invisibilidade racista.

Ao colocar o tambor do Sul no coração do maior espetáculo popular do país, a escola tensionou a narrativa oficial de um Brasil homogêneo. Mostrou que o Rio Grande do Sul também é negro, também é terreiro, também é resistência. Dar visibilidade é um ato político – sobretudo quando o silêncio sempre foi imposto como regra.

E o encerramento simbólico com a referência a Mestre Sacaca, curandeiro preto-indígena do Amapá, ampliou ainda mais o mapa dessa rebeldia cultural.

Ao celebrar saberes ancestrais amazônicos, o Carnaval confronta séculos de apagamento. A sabedoria popular, frequentemente tratada como folclore menor, surge como patrimônio vivo e insurgente.

O fio que uniu a noite foi a contestação. Revolta contra a censura, contra o racismo estrutural, contra a violência política, contra a tentativa de reescrever a história. Antissistema? Talvez – mas no melhor sentido: o de quem questiona estruturas injustas e exige transformação.

O Carnaval nunca foi neutro. Nasceu da mistura proibida, da batida que a elite tentava calar, do povo que ocupava a rua quando lhe negavam palácio. Ao reafirmar essa vocação, as escolas do Grupo Especial mostraram, neste primeiro dia, que a avenida continua sendo tribuna.

E que se explodam os negacionistas e oportunistas de plantão que tentam reduzir a festa a entretenimento despolitizado. O samba é memória. O samba é denúncia. O samba é projeto de país.

Na Sapucaí, o espetáculo foi grandioso – mas maior ainda foi a mensagem: quando o povo canta, também reivindica. E quando reivindica em uníssono, a história escuta.

Oliveiros Marques
Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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