Com o título “O cassino estatal: receita fácil, custo social elevado”, eis artigo de Alex Araújo, economista eex-secretário de Desenvolvimento Local do Estado. “Quando o Estado decide explorar economicamente o mercado de jogos, ocorre uma mudança qualitativa. Ele deixa de ser apenas regulador e passa a ter interesse direto no aumento do consumo de uma atividade que gera dano social conhecido”, expõe o articulista
Confira:
Nas últimas duas décadas, o jogo deixou de ser um evento ocasional e tornou-se uma atividade contínua, portátil e altamente estimulante. A popularização das apostas digitais — especialmente as apostas de cota fixa, conhecidas como bets — transformou o ato de jogar em uma experiência permanente, integrada ao celular, às redes sociais e ao esporte profissional.
A literatura científica mostra que essa mudança não é neutra. Estudos conduzidos por pesquisadores como Mark Griffiths e Rachel Volberg, além de relatórios da Organização Mundial da Saúde, indicam que quanto maior a frequência, a velocidade e a disponibilidade do jogo, maior o risco de desenvolvimento de dependência. Não se trata de um efeito colateral raro, mas de um padrão estatístico consistente, com impactos mais severos entre jovens e pessoas de baixa renda.
As bets intensificam esse problema porque operam em tempo real, oferecem recompensas imediatas e utilizam mecanismos de engajamento semelhantes aos das redes sociais. O resultado é simples de observar: mais tempo jogando, mais dinheiro apostado e maior dificuldade de interrupção voluntária. É nesse cenário que o Governo do Ceará sinaliza a intenção de ampliar sua atuação direta no mercado de jogos, inclusive nas apostas de cota fixa, tratando essa atividade como alternativa de arrecadação pública.
Arrecadar não é explorar
O Estado moderno se financia, essencialmente, por meio de tributos. Esse modelo se baseia em um princípio claro: o governo não precisa estimular uma atividade específica para arrecadar. Ele tributa a renda, o consumo e o patrimônio gerados na economia como um todo.
Quando o Estado decide explorar economicamente o mercado de jogos, ocorre uma mudança qualitativa. Ele deixa de ser apenas regulador e passa a ter interesse direto no aumento do consumo de uma atividade que gera dano social conhecido. Quanto mais as pessoas apostam, maior a arrecadação.
Quanto maior a arrecadação, maior o incentivo implícito para expandir o jogo. Forma-se, assim, um conflito estrutural: o mesmo Estado que promove e concede o jogo passa a arcar, pelo SUS, com os custos do adoecimento psíquico, do endividamento familiar e da desorganização social associada à ludopatia. A causa e o tratamento passam a coexistir dentro do mesmo orçamento público.
Legalidade não resolve o problema moral
É comum justificar essa política com base na legalidade da atividade. De fato, o jogo é permitido por lei. Mas legalidade não equivale a legitimidade nem a boa política pública.
O próprio Estado reconhece que certas atividades legais — como tabaco e álcool — produzem danos relevantes. Por isso, não as trata como
oportunidades de negócio, mas como riscos a serem contidos: tributa, regula e restringe publicidade.
No caso das apostas, ocorre o oposto. O Estado passa a sinalizar que vê o jogo não apenas como um risco tolerado, mas como uma estratégia fiscal desejável. Essa escolha enfraquece o discurso de proteção social e normaliza uma atividade cujo impacto negativo já é amplamente documentado.
A ironia distributiva
O argumento distributivo torna a contradição ainda mais evidente. Parte relevante da arrecadação será destinada ao combate à fome, à saúde e à segurança pública.
O problema é que os dados mostram que os mais pobres são, proporcionalmente, os que mais perdem com o vício em jogos. São eles que
comprometem renda básica, alimentação e estabilidade familiar. Na prática, o Estado passa a financiar políticas sociais com recursos extraídos justamente dos grupos mais vulneráveis ao dano.
É uma redistribuição que começa pelo erro. O fato de devolver parte do recurso não elimina o custo humano gerado no processo. Trata-se de uma forma indireta — e pouco transparente — de tributação regressiva.
Arrecadação fácil, custo alto
Transformar o jogo em solução fiscal revela menos uma estratégia de desenvolvimento e mais um atalho de curto prazo. Em vez de ampliar a base produtiva, melhorar a eficiência tributária ou estimular crescimento sustentável opta-se por uma fonte de receita associada a adoecimento e exclusão.
Quando o Estado passa a depender financeiramente de atividades que deterioram o bem-estar da própria população, algo essencial se perde. A questão não é apenas jurídica ou fiscal. É uma escolha sobre como o poder público se relaciona com a fragilidade social — e se deve lucrar com ela.
*Alex Araújo
Economista e ex-secretário de Desnvolvimento Local do Estado.
Ver comentários (1)
Concordo plenamente com o excelente artigo do ilustre e estudioso Dr. Alex Araújo. Lamentável essa posição dos governos buscar receitas por meio de jogos viciantes que tanto prejuízo acarreta às famílias de membro que envereda por esse caminho.
“O mal se corta pela raiz”, nos ensina a sabedoria popular, sempre assertiva, genial e incontestável!!!