“O cerco à advogada Viviane Barci de Moraes também é machismo repetitivo” – Por Moisés Mendes

“Por obsessão, colunista Malu Gaspar reduziu uma profissional do Direito à condição de mulher de Alexandre de Moraes”, aponta o jornalista Moisés Mendes

Confira:

Essas três chamadas, em títulos destacados no alto da capa do Globo online, foram publicadas nessa sequência pela colunista Malu Gaspar:

Dia 19 de janeiro: “A derrota da mulher de Alexandre de Moraes na defesa do Banco Master”.
Dia 21: “Mulher de Alexandre de Moraes atua em caso enviado para Toffoli no STF”.
Dia 22: “Master: atuação da mulher de Alexandre de Moraes é desconhecida em quatro órgãos previstos em contrato milionário”.

Malu Gaspar dedica-se assim à sua obsessão, desde as primeiras denúncias de que Viviane Barci de Moraes havia sido contratada pelo Banco Master. E que o ministro teria tentado intervir pelo Master junto ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Também é assim que funciona o jornalismo, mesmo o que quase nunca tem fontes identificadas, como é o perfil do trabalho da colunista do Globo. Malu Gaspar precisa conseguir amarrar e dar coerência ao que noticiou pela primeira vez em abril do ano passado.

Precisa conectar o Master à advogada, a advogada a Moraes, por ser casada com ele, e Moraes ao banco quebrado, pelas supostas e nunca provadas interferências junto ao BC.

Mas Malu só tem fontes ocultas, o que é legítimo no jornalismo. Mas, sem fontes que assumam o que dizem, a jornalista persegue o imprevisível e o imponderável. Que alguém em algum momento assuma a bronca publicamente e dê veracidade ao que ela informou, ou que uma CPI ou o sistema de Justiça levem adiante o que não consegue como jornalista: provar o que saiu no jornal.

É razoável, é legítimo, é usual que jornalistas tentem salvar a própria pele, quando informações ficam desamarradas, porque muitos deles têm a certeza de que assim também salvam o Brasil. Geralmente contagiados pela índole lavajatista que caçou e prendeu Lula.

Mas é também razoável, legítimo e usual que se pergunte o seguinte: Malu Gaspar precisa reduzir a condição da advogada Viviane Barci de Moraes à de mulher de Alexandre de Moraes, em todas as manchetes que publica na sua coluna? Todas.

Precisa repetir nos títulos, em todos os títulos, sem exceções, que “a mulher de Alexandre de Moraes” trabalha para o Master? É um debate possível, que irá dividir jornalistas de direita e de esquerda em posições previsíveis.

O Globo publica manchetes em que Michelle Bolsonaro é apresentada como a mulher de Bolsonaro? Sabendo-se que Michelle assume sua condição de figura pública por ser mulher de Bolsonaro? E que Viviane tem atividade privada e não é advogada por ser mulher de Alexandre de Moraes?

O Globo publicaria manchetes em que a jurista Carol Proner apareceria como mulher de Chico Buarque por ter criticado alguma atitude fascista, como é comum em seus textos publicados nos jornais? E como é comum na arte e nas falas de Chico Buarque?

Malu Gaspar pode apresentar os mais variados argumentos para dizer por que ‘qualifica’ Viviane como mulher de Alexandre de Moraes. Mas todos serão confrontados com a certeza de que a insistência é uma atitude de machismo repetitivo.

Viviane Barci de Moraes é reconhecida como advogada antes de Moraes chegar ao Supremo. Qualquer suspeita sobre possíveis vínculos dela com o Master e deste com Moraes, que deve ser investigada, não pode reduzi-la para sempre à condição de mulher de Alexandre de Moraes em todos os títulos das colunas da jornalista do Globo.

Alguém pode dizer que a tentativa de desqualificação profissional de Viviane poderia ser amenizada com o uso da palavra esposa. Mas é uma bobagem, um debate sobre convenções, e não é esse o caso.

O que se percebe aqui é a insistência em reduzir, já no título, a condição de Viviane à de mulher do ministro. Ela só teria se transformado em advogada e jurista por causa dele?

Fica, pela repetição obsessiva, o desconforto da sensação de que, se pudesse, se fosse mais atrevido na sua abordagem preconceituosa, o jornal trataria Viviane Barci de Moraes com os recursos das caricaturas e a chamaria de muié de Xandão.

Malu Gaspar não precisa repetir, a cada coluna, na chamada de capa, que persegue provas contra a mulher de Alexandre de Moraes. Pela repetição, quem acompanha o caso sabe que Viviane Barci de Moraes tem vida própria, dedica-se a uma atividade profissional e deve ser respeitada na sua condição de mulher, antes de ser enquadrada da mesma forma que a coloca como subalterna todas as vezes.

Que o Globo preste atenção no caso de Michelle Bolsonaro, que já se autodefiniu como ajudadora do marido e pregou que as mulheres se comportem assim. Uma jornalista do Globo não pode se comportar como seguidora de Michelle.

Livrem-se dessa obsessão e procurem outras pautas. Ataquem os machos do fascismo e um dia peçam desculpas à advogada Viviane Barci de Moraes.

Moisés Mendes
Jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre

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