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“O Crepúsculo do Lulopetismo no Nordeste Brasileiro” – Por João Arruda

João Arruda, professor aposentado da UFC e sociólogo. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “O Crepúsculo do Lulopetismo no Nordeste Brasileiro”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.

Confira:

As sucessivas pesquisas eleitorais vêm confirmando um fenômeno político extremamente relevante no Nordeste: o presidente Lula começa a perder sua histórica conexão com o eleitorado nordestino. A região, que por décadas foi tratada como um bunker inexpugnável do lulopetismo, uma fortaleza eleitoral que foi erguida sobre promessas messiânicas e reforçada por atrasadas políticas assistencialistas, começa a dar sinais de exaustão. Por mais que o lulopetismo tente camuflar sua decadência eleitoral, os números são implacáveis: a antiga hegemonia se esvai, e a maioria eleitoral de outrora dá lugar a uma disputa cada vez mais acirrada.

As projeções para 2026 expõem uma mudança inequívoca de paradigma. Lula perde terreno justamente entre os segmentos populares, tradicionalmente vistos como sua base mais resiliente. Paralelamente, a ascensão da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro revela que o eleitor nordestino, fatigado por promessas vãs e por sucessivas frustrações de expectativas, começou a reagir. Após anos de sofrimentos e desgastes acumulados, emerge um eleitor insubmisso, menos suscetível ao discurso emocional e mais disposto a romper com antigos alinhamentos que insistem em tratá-lo como gado.

É preciso encarar uma verdade histórica: quando a confiança e a esperança do povo se dissolvem, o poder escorre por entre os dedos dos cafajestes contumazes. A menos de seis meses das eleições presidenciais, o cenário para outubro de 2026 desenha uma retração alarmante nas hostes lulopetistas.

A mudança é tangível. Ao compararmos os resultados eleitorais de 2022 – quando Lula obteve 69,3% dos votos válidos contra 30,7% de Bolsonaro -, com as sondagens atuais, o declínio é nítido e os petistas começam a entrar em desespero. Embora Lula ainda lidere com certa folga, seus índices hoje flutuam entre 53% e 55%, enquanto Flávio Bolsonaro já consolida uma base entre 26% e 28%, com firme viés de alta. Essa queda petista, que oscila entre 15 e 18 pontos percentuais, não é um mero detalhe estatístico; é um abalo estrutural em seu principal bastião político. O Nordeste foi a única região do país onde o PT obteve vitória. Perder fôlego em seu tradicional reduto eleitoral compromete a espinha dorsal de sua viabilidade nacional e coloca a continuidade do projeto lulopetista em uma zona de risco real. Entre as diferentes facções petistas, já consciente dessa adversidade, o que se observa é um clima de barata voa.

Para agravar a situação eleitoral do presidente Lula, dois fatores tendem a exercer influência decisiva nas eleições deste ano. O primeiro é de natureza político-regional: a formação de novas alianças antipetistas nos três principais colégios eleitorais do Nordeste torna o cenário significativamente mais adverso para Lula.

No Ceará, Ciro Gomes, após sua filiação ao PSDB no final de 2025, passou a liderar com ampla vantagem todas as pesquisas para o governo estadual, com reais possibilidades de vitória já no primeiro turno. Sustentado por um discurso firmemente antipetista, sua candidatura atraiu o apoio do União Brasil, Cidadania, Partido Novo, PL e diversas forças políticas locais. À frente desse amplo e heterogêneo bloco, Ciro consolida a construção de um palanque robusto, capaz de impulsionar de forma significativa a candidatura de Flávio Bolsonaro no estado e, simultaneamente, esvaziar o capital político lulopetista.

Em Pernambuco, o cenário também se tornou mais desafiador para o campo governista. João Campos, apoiado por Lula e até então líder absoluto nas pesquisas, com projeções que indicavam vitória em primeiro turno, passou a registrar quedas consistentes a partir do momento em que forças políticas ligadas à governadora Raquel Lyra firmaram acordos com o PL e outros partidos do Centrão. Com acesso ao palanque político de Raquel Lyra, Flávio Bolsonaro tende a atrair uma parcela significativa do eleitorado anteriormente alinhado ao lulismo. Na Bahia, quarto maior colégio eleitoral do país, ACM Neto lidera com folga as pesquisas contra o atual governador Jerônimo Rodrigues. Se a situação deste já era delicada, a aliança de ACM Neto com o PL não apenas amplia seu favoritismo, como também fragiliza a campanha de Lula no estado, ao garantir a Flávio Bolsonaro um palanque competitivo e estruturado.

Esses movimentos não são fatos isolados. Ao contrário, revelam um processo mais amplo de reorganização política regional que, estado após estado, corrói a hegemonia que, por anos, sustentou a força eleitoral de Lula no Nordeste. Nesse contexto de enfraquecimento da candidatura petista, alguns institutos de pesquisa já apontam para a possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro em estados como Alagoas e Rio Grande do Norte. Mantida essa tendência, não é improvável que o candidato alcance entre 35% e 40% dos votos na região, um patamar que comprometeria qualquer possibilidade de reeleição de Lula.

O segundo fator que vem contribuindo para o isolamento de Lula, este de dimensão nacional, são os sucessivos escândalos de corrupção, com destaque para os casos envolvendo o INSS e o Banco Master. Essas denúncias atingem figuras relevantes dos três poderes da República e alcançam também pessoas próximas ao presidente, como seu filho Lulinha, seu irmão Frei Chico e sua nora, Carla Ariane Trindade. Segundo reportagem da revista Veja, publicada em 1º de maio, as investigações sobre a suposta ligação de Lulinha com o chamado “Careca do INSS” estariam em estágio avançado, e os elementos já apurados teriam potencial para impactar diretamente o projeto de reeleição presidencial.

Diante desse conjunto de fatores – o enfraquecimento das bases regionais no Nordeste e o desgaste provocado por sucessivos escândalos de corrupção em âmbito nacional -, o cenário que se desenha é profundamente adverso ao presidente Lula. Mais do que uma simples oscilação eleitoral, trata-se de um processo de erosão política que sinaliza o esgotamento de um ciclo. Nesse contexto, ganha força a possibilidade concreta de eleição de uma nova liderança capaz de reposicionar o Brasil no caminho do desenvolvimento econômico e social, resgatando a confiança institucional, restaurando o equilíbrio fiscal e enfrentando com firmeza a escalada da violência e da corrupção.

Ao mesmo tempo, cresce no imaginário de parcela expressiva da população a expectativa por medidas que promovam a pacificação nacional, incluindo a decretação de uma anistia geral aos presos e perseguidos políticos, e a condenação exemplar dos responsáveis pela falsa narrativa da “trama golpista”. Esse desfecho será a condição sine qua non que reconfigurará os rumos políticos e institucionais do país nos próximos anos.

*João Arruda

Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

Ver comentários (1)

  • Você acertou bem o colapso nordestino, e os números não mentem!! Mas vale um contraponto professor, o Nordeste sempre empurrou Lula, mas quem o segurou mesmo foi São Paulo. A cidade paulista é petista, e sem os votos paulistas, nenhuma das vitórias de Lula teria sido possível. Se o PT perder São Paulo antes de perder o Nordeste, aí sim a conta não fecha de jeito nenhum. A questão é, o desgaste que é descrito no Nordeste já chegou na capital paulista, ou ainda não?

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