Com o título “O Estado que Pede Licença ao Crime”, eis artigo de Gera Teixeira, empresário. “A história mostra que Estados não costumam cair apenas por guerras ou revoluções. Muitos apodrecem lentamente quando deixam de exercer aquilo que justifica sua própria existência: a capacidade de fazer cumprir a lei e proteger seus cidadãos”, expõe o articulista.
Confira:
Há um tipo de rendição que não acontece diante das câmeras. Não há assinatura de tratado, bandeira branca nem discurso oficial. Ela se instala aos poucos, silenciosamente, quando o Estado deixa de impor limites e passa a negociar a própria autoridade.
PCC, Comando Vermelho, GDE e outras facções já ultrapassaram há muito a condição de quadrilhas. Transformaram-se em estruturas de poder. Possuem hierarquia, regras, arrecadação, inteligência, logística e capacidade de intimidação. Não disputam apenas territórios. Disputam soberania.
Quando se anuncia a instalação de bloqueadores de sinal nos presídios e, pouco tempo depois, a medida desaparece sem explicações convincentes, a população percebe que existe algo além das notas oficiais. Quando surgem relatos persistentes de que licitações, fornecimentos e contratos destinados ao sistema prisional precisam atravessar filtros invisíveis impostos pelo crime organizado, instala-se uma sensação inquietante: quem realmente está mandando?
A questão já não é apenas a violência dos fuzis. O problema mais profundo está na infiltração. O Ceará tornou-se um dos mais importantes corredores internacionais do narcotráfico. Sua posição geográfica estratégica, próxima às rotas marítimas e aéreas que ligam a América do Sul à Europa, África e América do Norte, transformou o estado em um poderoso hub de distribuição de drogas para mercados internacionais. O tráfico deixou de ser apenas uma atividade criminosa. Tornou-se uma engrenagem econômica transnacional que movimenta bilhões.
Por trás dele prosperam sofisticados sistemas de lavagem de dinheiro, corrupção, contrabando, mercados clandestinos e mecanismos de influência capazes de alcançar setores da economia e das instituições. O dinheiro ilícito não permanece nas vielas. Ele procura empresas, contratos, influência política e respeitabilidade social.
Mais inquietante ainda é a sensação de que a inércia de muitos dos que deveriam prevenir, combater e sufocar esse avanço acaba, em determinados momentos, confundindo-se com complacência. Quando o enfrentamento cede espaço à hesitação, quando a autoridade recua diante da intimidação e quando medidas anunciadas desaparecem sem explicações convincentes, a dúvida deixa de ser um exercício de desconfiança e passa a ser uma inquietação legítima da sociedade.
Enquanto isso, o cidadão comum vive sitiado. Paga impostos ao Estado formal e, em algumas regiões, submete-se também às regras impostas pelo Estado paralelo. Há bairros onde a circulação depende de autorização criminosa. Há comunidades onde a lei escrita vale menos do que a ordem transmitida por um telefone clandestino.
O mais perturbador não é a existência das facções. Organizações criminosas existem em diversos países. O que assusta é a aparente naturalização da convivência com elas. Como se fosse razoável administrar o problema em vez de enfrentá-lo. Como se fosse aceitável que decisões públicas fossem condicionadas pela reação de criminosos.
Nenhuma sociedade permanece saudável quando o medo passa a orientar as políticas públicas. O medo é um péssimo legislador e um administrador ainda pior. Toda vez que o Estado recua para evitar confrontar quem desafia sua autoridade, a mensagem transmitida é simples e devastadora: o crime compensa.
O Ceará corre um risco que vai muito além da criminalidade comum. O risco é a lenta construção de um narcoestado, não por ruptura abrupta, mas por erosão gradual. Um processo em que as instituições permanecem de pé, os ritos democráticos continuam funcionando, mas por dentro as engrenagens passam a sofrer a influência crescente de interesses criminosos.
A história mostra que Estados não costumam cair apenas por guerras ou revoluções. Muitos apodrecem lentamente quando deixam de exercer aquilo que justifica sua própria existência: a capacidade de fazer cumprir a lei e proteger seus cidadãos.
Facções que controlam territórios, impõem normas, desafiam o Estado, financiam-se pela violência e submetem populações inteiras ao medo não são apenas organizações criminosas. São organizações terroristas. E continuar tratando-as como algo menor é parte do problema.
*Gera Teixeira
Empresário.