“São João Paulo II, na encíclica ‘Centesimus Annus’, advertiu contra as soluções que sacrificam a dignidade da pessoa em nome de projetos coletivistas”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves
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A missão da Igreja nasce do mandato, explícito de Cristo e encontra no próprio Evangelho os fundamentos suficientes para a promoção integral do homem, especialmente dos pobres. A afirmação de que o Evangelho necessitaria de um complemento ideológico, como o oferecido por correntes claramente heréticas da Teologia da Libertação, parte do pressuposto de que a Revelação seria insuficiente para orientar a ação social cristã. No entanto, a Sagrada Escritura, a Doutrina Social da Igreja e o ensinamento de eminentes teólogos demonstram que a caridade cristã e a justiça social fluem organicamente do próprio depósito da fé, sem necessidade de mediações ideológicas inspiradas em categorias estranhas ao Evangelho.
O compromisso com os pobres não é uma invenção moderna nem um acréscimo sociológico à fé. Ele está no coração do Evangelho.
No discurso inaugural em Nazaré, Jesus proclama: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4.18). No Juízo Final, Ele identifica-se com os necessitados: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25.35). A caridade para com os pobres não é estratégia política, mas critério escatológico.
Contudo, o mesmo Cristo afirma: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Ele recusa explicitamente ser reduzido a líder político (cf. Jo 6.15) e rejeita a lógica revolucionária da violência (“Embainha tua espada”, Mt 26.52). A libertação que Ele traz é, antes de tudo, libertação do pecado (cf. Jo 8.34-36), raiz última das injustiças humanas.
São Paulo reforça essa perspectiva ao ensinar que a verdadeira transformação começa pela renovação interior: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (Rm 12.2). A mudança social cristã é consequência da conversão, não produto de luta de classes.
A Igreja desenvolveu ao longo dos séculos uma reflexão social coerente, sistematizada especialmente a partir da “Rerum Novarum” (1891), do Santo Padre Leão XIII. Essa doutrina não nasce de ideologias modernas, mas da aplicação dos princípios evangélicos à realidade social.
São João Paulo II, na encíclica “Centesimus Annus”, advertiu contra as soluções que sacrificam a dignidade da pessoa em nome de projetos coletivistas. Ele reconheceu a “opção preferencial pelos pobres”, mas rejeitou claramente a instrumentalização da fé por ideologias marxistas, afirmando que a luta de classes como princípio interpretativo da história é incompatível com a visão cristã da pessoa humana.
O Dicastério (então Congregação) para a Doutrina da Fé, sob a presidência do então Cardeal Joseph Ratzinger, publicou em 1984 a Instrução “Libertatis Nuntius”, na qual reconhece a nobre intenção de muitos teólogos da libertação, mas alerta para “desvios” quando categorias marxistas são assumidas como chave hermenêutica da fé. O documento sublinha que reduzir o pecado a estruturas sociais e a salvação à transformação política constitui grave empobrecimento da mensagem cristã.
A Doutrina Social da Igreja sustenta quatro pilares fundamentais: dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade. Esses princípios permitem uma ação social vigorosa sem recorrer à dialética revolucionária.
Teólogos eminentes reforçam essa posição.
Henri de Lubac advertiu contra a tentação de transformar o cristianismo em mera força histórica intramundana, esquecendo sua dimensão sobrenatural. Para ele, quando o cristianismo é reduzido a programa político, perde-se sua essência salvífica.
Joseph Ratzinger insistiu que a fé não pode ser absorvida por análises sociológicas. Em diversas obras, como Introdução ao Cristianismo, ele recorda que o núcleo da fé é a relação pessoal com Cristo, não um projeto revolucionário.
Mesmo teólogos latino-americanos que dialogaram com a questão social reconheceram que a libertação cristã deve ser integral, ou seja, espiritual, moral e social; e não apenas estrutural. A transformação das estruturas sem conversão do coração conduz apenas à substituição de elites, não à superação da injustiça.
A história do século XX fornece exemplos eloquentes de projetos revolucionários que, prometendo libertação, produziram novas formas de opressão. Sistemas inspirados na luta de classes frequentemente resultaram em restrição de liberdades, perseguições religiosas e graves violações da dignidade humana.
O Evangelho constrói comunhão. São Paulo afirma: “Não há judeu nem grego… pois todos sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,28). A lógica cristã não é a do antagonismo permanente, mas a da reconciliação.
Quando a fé é instrumentalizada para fomentar divisões ideológicas, corre-se o risco de substituir a caridade pela militância e a comunhão pela polarização. A Igreja sempre atuou em favor dos pobres por meio de obras concretas: hospitais, escolas, santas casas, missões, ordens religiosas dedicadas aos marginalizados. Essa ação precede qualquer formulação moderna de teologia política. São Francisco de Assis, São Vicente de Paulo, Santa Teresa de Calcutá, São João Bosco, Santa Dulce dos Pobres e tantos outros demonstraram que o amor cristão transforma realidades sem necessidade de adesão a programas revolucionários.
A libertação cristã começa no coração humano, porque o mal social brota do pecado pessoal. Como ensina Bento XVI na Encíclica “Deus Caritas Est”, a Igreja não propõe sistemas políticos específicos, mas purifica a razão e desperta as forças morais necessárias para uma ordem justa.
Isso não significa omissão diante da injustiça. Pelo contrário, implica ação concreta, mas fundamentada na caridade e na verdade, não na luta ideológica. O cristão é chamado a agir na política segundo sua consciência bem formada, mas a Igreja não se identifica com projetos partidários nem revoluções de classe.
Enfim, é fácil constatar em face da história do Cristianismo, que o Evangelho não necessita da Teologia da Libertação enquanto sistema ideológico para justificar o cuidado com os pobres. Cristo já confiou à sua Igreja a missão de anunciar a salvação integral e de praticar a caridade concreta. A Doutrina Social da Igreja oferece princípios sólidos para enfrentar as injustiças, sem reduzir a fé a instrumento de transformação revolucionária.
Quando permanece fiel ao Evangelho, a Igreja promove justiça sem ódio, solidariedade sem luta de classes, transformação sem violência, e libertação sem negar a transcendência. A verdadeira revolução cristã é a conversão do coração. E dela nascem as mudanças duradouras na sociedade.
Barros Alves é jornalista e poeta