“Escreva com as palavras que você possa vestir. Quais palavras que só você tem?”
“Tudo é sobre nós. Eu posso estar escrevendo uma ficção científica em 2086 e eu sei que o personagem vai cuspir igual meu pai cuspia.”
Gente, eu poderia ficar aqui o dia inteiro listando as lições que Marcelino Freire me deu em junho de 2025. A foto com a data do curso e algumas das grandes lições apreendidas rabiscadas no papel mostram que eu nem pisquei quando assisti o curso dele. Queria anotar cada vogal, cada respiro e, como ele mesmo diz, cada pulsação em sua fala.
Há escritores que a gente lê e há escritores que leem a gente. Marcelino me leu desde o primeiro encontro, quando ele nem sonhava que uma pessoa lá do Ceará estava ali, fascinada, olhando para a tela do computador, quase sem respirar, para ter a certeza de que não perderia nenhuma palavra dita.
“Eu escrevo pra conversar, pra dar vida a quem me deixou”.
“Quem já morreu e precisa do seu abraço?”
Pernambucano de Sertânia, radicado em São Paulo, Marcelino carrega na escrita a pulsação do sertão e, sobretudo, uma voz literária que não pede licença: chega, cutuca, inquieta e permanece.
Autor de obras marcantes como Contos Negreiros, premiado com o Jabuti, e Nossos Ossos, Marcelino construiu uma trajetória em que a literatura não se limita à página — ela ecoa no corpo, na voz e no ouvido do leitor. Sua escrita parece nascer do som, do silêncio, do ritmo e da respiração das frases. Não por acaso, ouvi-lo falar sobre o ofício da criação é quase uma extensão natural da leitura de sua obra.
Cinco meses depois, fiz outro curso. Também online, mas dessa vez, ao vivaço. Era ele, ali do outro lado. Que emoção! Todos os alunos com o mesmo encantamento que eu. Alguns, já até com certa intimidade com o Mestre por já ter feito cursos presenciais. Pensei: Imagine, estar com Marcelino, um dia, quem me dera! Um dia, vou bater lá em São Francisco Xavier pra fazer mais um curso dele. Bom, como eu não sei que dia isso vai acontecer, adianto que
já estou fazendo um terceiro curso com o Marcelino e, vejam só, tive a honra de entrevistá-lo no episódio 17 do podcast Cafezim com Literatura.
“Quando você tá escrevendo, não existe leitor. Quem garante que alguém vai ler? Quem garante que a sua família vai ler? Não estou depreciando o leitor, jamais, mas quem pensa no leitor ao escrever é escritor de autoajuda”.
“Se o livro não arde em quem escreve, não queima em quem lê”.
“Escrever é entrega espiritual”
Durante a entrevista, Marcelino compartilhou memórias da infância, falou sobre ser o caçula de uma família numerosa e sobre como a literatura surgiu como caminho de vingança, salvação,
resistência e reinvenção. Em suas palavras, escrever é também um modo de sobreviver ao mundo — e de confrontá-lo.
A conversa percorre ainda o universo das oficinas literárias, espaço no qual Marcelino também se destaca como formador de novos escritores, muitos deles, vencedores de premiações nacionais. Mais do que ensinar técnicas, Marcelino provoca deslocamentos: faz o outro perceber que a escrita nasce da escuta, da observação e, muitas vezes, da coragem de dizer aquilo que ainda não foi dito.
Há, em sua fala a mesma potência que existe em seus textos: uma combinação rara de afeto, contundência e irreverência.
Sua literatura desestabiliza certezas, dá voz aos invisibilizados e transforma a palavra em instrumento de denúncia, beleza e humanidade. É uma escrita que grita sem perder a poesia, que denuncia sem abrir mão da estética.
Para quem ama literatura, o episódio é um convite a mergulhar não apenas na obra do autor, mas também nos bastidores da criação literária: como nasce um texto? De onde vem a voz de um escritor? O que transforma vivência em linguagem?
Essas e outras reflexões estão presentes nesse bate-papo especial do Cafezim com Literatura.
Fica aqui o convite: prepare o café, reserve um tempo para a escuta e venha conferir essa conversa inspiradora com Marcelino Freire.
O episódio completo está disponível no canal do Cafezim com Literatura no youtube e na sua plataforma de áudio preferida.
Vou colocar alguns links aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=W9c0yFVrCJM https://open.spotify.com/episode/1PW14haDdnBM7kcJx8i7OU
Lançamento “Não volte sem ele”
O servidor público e escritor Rafael Caneca lança seu primeiro romance. Coautor da obra “Tanta coisa a gente inventa” e integrante do coletivo literário “Delirantes”, o criador do @pacotedetextos traz a temática dos campos de concentração que o Ceará teve, na seca de 1930, para que a miséria não chegasse à capital. “Um pedaço da nossa história que precisava ser contado. Tomás atravessa a seca em busca do irmão desaparecido, com uma promessa nas mãos e um país nas costas”, adianta o autor.
“Não volte sem ele” é uma obra publicada pela @mondrueditora.
Lançamento de “Não volte sem ele”
25 de abril (sábado)
A partir das 16h
Museu da Fotografia de Fortaleza (@museudafotografiafortaleza)