Com o título “O fenômeno da geração sóbria pós-pandemia”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Surge, então, um novo perfil de jovem consumidor. Temos agora o mais atento ao próprio corpo, mais consciente dos impactos do consumo, mais conectado à lógica da performance, da saúde, da estética e do autocuidado”, expõe o colunista.
Confira:
Às vésperas do Carnaval, quando o imaginário coletivo ainda associa juventude, festa e cerveja quase como sinônimos culturais, um dado divulgado recentemente chama a atenção. O consumo de cerveja entre jovens vem caindo de forma consistente. Embora possa parecer um tema fora de tempo no calendário da folia, o fenômeno é real, relevante e, sobretudo, estrutural. E não se trata de algo restrito ao Brasil. Estudos e levantamentos internacionais apontam para uma tendência semelhante em diferentes países, com jovens adultos reduzindo ou abandonando o consumo de álcool.
Esse movimento, no entanto, não nasce agora. Ele se consolida no período pós-pandemia da Covid-19, quando hábitos, valores e prioridades passaram por uma reconfiguração profunda. O isolamento social, a experiência do risco, a intensificação do debate sobre saúde mental e bem-estar e o acesso ampliado à informação criaram um novo ambiente simbólico de escolhas. O álcool, que por décadas ocupou lugar central na sociabilidade juvenil, passa a ser relativizado.
Surge, então, um novo perfil de jovem consumidor. Temos agora o mais atento ao próprio corpo, mais consciente dos impactos do consumo, mais conectado à lógica da performance, da saúde, da estética e do autocuidado. Não é uma geração menos festiva, mas uma geração que redefine o sentido da diversão. A busca não é pela negação da experiência social, mas pela reconfiguração dela. Nesse cenário, o mercado responde de forma volátil e adaptativa. Bebidas sem álcool, cervejas zero, energéticos, suplementos, produtos funcionais, experiências gastronômicas, bem-estar, fitness, turismo de experiência e consumo simbólico ganham espaço. O consumo não diminui — ele se desloca.
Há, ainda, impactos positivos que não podem ser desconsiderados, como a redução de riscos à saúde pública, menor exposição a acidentes, violência, dependência química e doenças associadas ao álcool. Embora ainda faltem estudos sistematizados no Brasil que consolidem esse fenômeno em dados longitudinais, os sinais são claros. Mais do que uma “geração que bebe menos”, estamos diante de uma juventude que consome diferente. E isso não é uma moda passageira, mas um reflexo direto de uma sociedade que, depois da pandemia, passou a repensar o próprio sentido de prazer, risco e qualidade de vida.
É cedo, talvez, para decretarmos que daqui há alguns anos possamos estar vendo com o consumo de álcool o que se deu com o hábito de fumar cigarro? Os mais céticos poderão estar rindo da pergunta agora, mas houve quem se apegasse ao lobby das grandes empresas tabagistas para também desconsiderar, em princípio, as campanhas de conscientização sobre os malefícios do fumo. De todo modo, sou daqueles que entende que as grandes transformações comportamentais não se dão por decreto, e sim, ou por meio da mudança geracional ou das rupturas não programadas.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.
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Gostei muito do artigo, Lucam!