Com o título “O Foro de São Paulo e o Triste Fim de uma Utopia Messiânica”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “O Foro de São Paulo, concebido para preencher o vácuo deixado pelo colapso soviético, enfrenta agora o seu próprio ocaso. É o fim de um ciclo em que o marasmo econômico, o anseio popular por segurança, liberdade e a reafirmação dos valores cristãos atropelaram, finalmente, a utopia planejada da “Pátria Grande” em 1990″, expõe o articulista.
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Uma das características fundamentais da história é a sua não linearidade: ela não se submete a leis universais capazes de determinar, de forma inevitável, o destino da humanidade, como supunha o pensamento marxista clássico. Essa concepção teleológica, que exerceu profunda influência sobre o pensamento ocidental ao longo de mais de um século, começou a entrar em colapso com a crise do socialismo real.
Esse quadro de ruptura foi simbolicamente representada pela Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, e consolidada com a dissolução da União Soviética, em 26 de dezembro de 1991. Já em meados da década de 1970, antecipando sinais de esgotamento do modelo socialista, diversos partidos comunistas europeus iniciaram revisões estratégicas de seus projetos de poder, em um movimento que ficaria conhecido como eurocomunismo. Foram tentativas vãs, pois não havia lugar para nenhuma forma de revisionismo.
Tive a oportunidade de vivenciar esse período de intensas transformações e recordo o impacto sísmico que a crise do socialismo real produziu sobre os movimentos de esquerda latino-americanos. Subitamente privados de sua principal referência geopolítica e ideológica, esses grupos mergulharam em um estado de perplexidade: sentiram-se órfãos, desorientados e tomados por uma melancolia política, como se o horizonte histórico que lhes servira de guia tivesse desaparecido. A noção do chamado “fim da história”, difundida naquele contexto, reforçou a percepção de que o futuro já não seguia roteiros ou lógicas preestabelecidos, nem se encontrava submetido a qualquer determinismo histórico.
Foi nesse vácuo de incertezas que, em julho de 1990, Luiz Inácio Lula da Silva e Fidel Castro reuniram, em São Paulo, representantes de 48 organizações de 14 países. Ali nascia o Foro de São Paulo. O objetivo era claro: oferecer uma resposta estratégica ao colapso do socialismo soviético. O Foro buscou reinterpretar o marxismo à luz da nova ordem internacional, sustentando-se nos pilares do chamado “socialismo democrático”, na luta anti-imperialista e no projeto de integração regional da “Pátria Grande”, inspirado no pensamento de Simón Bolívar.
O Foro de São Paulo conheceu seu período de maior expansão ao longo das décadas de 1990 e, sobretudo, dos anos 2000, quando diversos partidos e lideranças de esquerda chegaram ao poder na América Latina. Esse ciclo foi marcado pela ascensão de governos alinhados ao chamado “progressismo latino-americano”, como os de Hugo Chávez na Venezuela, Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Néstor Kirchner e, posteriormente, Cristina Kirchner na Argentina, Evo Morales na Bolívia e Rafael Correa no Equador.
A trajetória do Foro, desde o seu nascimento, passou a ser associada a controvérsias políticas, corrupções governamentais e infinitas acusações de irregularidades. Segundo denúncias do ex-general Hugo Carvajal, antigo chefe da inteligência venezuelana e atualmente preso nos Estados Unidos, a organização teria sido, em parte, sustentada por recursos provenientes de atividades ilícitas, incluindo o narcotráfico. Em seus depoimentos, Carvajal mencionou líderes e movimentos que, segundo ele, teriam sido beneficiados por tais recursos, entre os quais Luiz Inácio Lula da Silva, Néstor Kirchner, Evo Morales e Gustavo Petro, além de partidos europeus, como o Podemos, da Espanha, e o Movimento 5 Estrelas, da Itália.
A hegemonia que o Foro ostentou nos primeiros anos do século XXI, começou a dar sinais de esgotamento diante do marasmo econômico, dos escândalos de corrupção e da crescente perda de legitimidade político dos seus dirigentes, incluindo os governos petistas. O surgimento de novas lideranças independentes na América Latina contribuiu para o esvaziamento prático da organização. Figuras como Nayib Bukele, de El Salvador, e Daniel Noboa, do Equador, passaram a adotar agendas nacionais centradas em segurança pública e no pragmatismo econômico, afastando-se das diretrizes globalistas e das inconsequentes políticas identitárias.
Mais recentemente, a eleição de Javier Milei, na Argentina, representou uma ruptura drástica. Ao adotar uma postura libertária e um confronto direto com as estruturas do Estado assistencialista defendidas pela esquerda latino-americana, Milei retirou um dos pilares de sustentação política do eixo Sul. Esse movimento transformou o Foro, antes um centro de estratégia continental, em um agrupamento cada vez mais restrito a regimes que autoritários isolados, como Cuba, Venezuela e Nicarágua.
Para acelerar esse declínio, o cenário internacional sofreu uma guinada decisiva com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A política externa de Washington, ao retomar a postura de “pressão máxima” sobre as ditaduras que financiam o Foro, cortou canais de influência e restringiu o fluxo de recursos que outrora irrigavam o projeto da “Pátria Grande”. Sem o suporte financeiro de Caracas e o cerco ao narcotráfico, a articulação do Foro minguou sob o peso diplomático da maior potência do mundo.
Os acontecimentos políticos no continente sinalizam que o Foro de São Paulo encontra-se em estado terminal. O seu isolamento aprofundou-se mais recentemente com a perda de aliados estratégicos no Chile, Bolívia, Peru e Honduras, somada às derrotas previsíveis da Colômbia, nas eleições presidenciais de maio, e do Brasil, com o fim do lulopetismo nas eleições de outubro.
O Foro de São Paulo, concebido para preencher o vácuo deixado pelo colapso soviético, enfrenta agora o seu próprio ocaso. É o fim de um ciclo em que o marasmo econômico, o anseio popular por segurança, liberdade e a reafirmação dos valores cristãos atropelaram, finalmente, a utopia planejada da “Pátria Grande” em 1990.
João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da UFC
Ver comentários (1)
Boa tarde aos meus amigos Eliomar de Lima e Nicolau Araújo. Haverá alguma resposta por parte dos intelectuais da esquerda cearense? Acredito que não!
Luiz Cláudio Ferreira Barbosa é sociólogo e consultor político