Com o título “O golpe não vem a galope”, eis crônica de Paulo Rogério, jornalista e cronista.
Acordei hoje com uma ligação de aviso do banco de que havia sido feita uma compra em minha conta de R$ 3 mil e precisavam de minha aprovação. Isso, às 7h30min, horário em que meus neurônios ainda estão em estado alfa. Devagar, limpei os olhos, me sentei na cama, olhei em volta para me localizar e pensei alto: “Será que comprei alguma coisa sem estar em meu nível mental sóbrio? E nesse valor? Do outro lado, a mensagem foi repetida. E acrescentou: “Para cancelar: aperte 1, para detalhes, 2”.
Já estava com o indicador pronto para digitar a segunda opção quando me lembrei de que não tenho nem conta nesse banco. Como pode? É golpe! Desliguei. Foi o primeiro do dia. Outros
aconteceriam até a noite. Incrível a criatividade dessa turma na tentativa de ludibriar os outros e ganhar um dinheiro fácil. A coisa chegou a tal ponto que está cada vez mais difícil o ser humano acreditar no ser humano. É golpe do cartão, da prova de vida, do WhatsApp. Golpe do INSS, do boleto falso, golpe da nota fria, da agência de turismo. Isso sem contar no Golpe de vento, golpe de ar e o contragolpe do time adversário. E ainda tem a recente tentativa de golpe de Estado. Essa, pelo menos, foi afastada a golpes certeiros nos envolvidos.
A arte de levar vantagem em tudo, a chamada Lei de Gérson, é antiga. Desde sempre, o homem tenta enganar o semelhante com técnicas que mudam apenas de nome, mas, no fundo, são as mesmas coisas. É o velho conto do vigário, expressão que remonta ao século 18, oriunda da discussão de dois padres pela posse de um burro. Há outra versão, é verdade. Fala de dois espertinhos que arrecadaram dinheiro na cidade dizendo que era em nome do vigário local. E não era, logicamente. Vem daí a palavra vigaristas.
Pois bem. Para vocês não acharem que estou dando o golpe do cronista que não tinha assunto – o que não é verdade, essa onda de golpes tem provocado a mudança na rotina das pessoas na tentativa de se livrar dos gatunos. Muitas, por exemplo, não atendem mais ligações de números desconhecidos. Isso dificultou a vida de vendedores, de pesquisadores, do pessoal do telemarketing. Os trotes que a gente dava quando criança sumiram. A geração de hoje não sabe o que é o sujeito apaixonado fazer uma ligação anônima para casa da namoradinha, só para ouvir a voz dela do outro lado dizer alô.
Se hoje não se usa mais o velho talão para dar o golpe do “cheque sem fundo”, criou-se o pix falso ou cartão de crédito clonado. Todo mundo está desconfiado do outro. O alerta é geral para tentar ficar livre de golpistas. Até mesmo a ida do homem à lua ficou ainda mais em dúvida. Dizem que foi golpe dos estúdios de Hollywood. E provam com imagens. Será?
O golpe não vem mais à galope. Chega além da velocidade da luz, via Inteligência Artificial.
*Paulo Rogério
Jornalista e cronista (Escreva às segundas)
(paulorogerio42@gmail.com)