Com o título “O inverno quando chega”, eis artigo de João Teles de Aguiar, professor e historiador. “É na chuva que o homem do sertão se refaz, prepara o roçado e o paiol, convoca sua força-tarefa para trabalhar e se enche de orgulho de sua terra, mesmo pouco; esse tempo é tão mágico, que, muitas vezes, ele esquece do governo, das forças oficiais, de quem deveria estar por perto, mas nem sempre chega ou arremedeia os problemas de alguém”, expõe o articulista.
Confira:
Digo, em poema, sobre o inverno, nosso melhor momento:
“Quando chove no sertão/Pinga água no roçado/O sertanejo se anima/E pega logo o cajado/E se arrasta lá pra roça/Com orgulho (bem) danado! Quando chove na ribeira/O cabra fica invocado/Toma o Collins nas mãos/Chama os ‘fi’, com alto brado/É que a semente tá pronta/E o córrego já está brejado!”
Isso, para falar da alegria do sertanejo com a chegada as águas. Elas são o maior refrigério, para eles.
Costuma-se dizer que o rurícola, com o inverno, “fica que nem pinto, no monturo!” Quando a chuva cai, a passarada ganha o mundo, atrás de comida, novos ares, novas terras, novos amores.
O inverno no Ceará traz temperaturas amenas, tempo gostoso; e as chuvas, que renovam a paisagem e trazem intensa alegria, para todo o povo do interland, sempre à espera de tempo bom, de melhorias.
Com pouco tempo de chuva, lá vem o abóbora, o maxixe, o canapum, a melancia, o peixe farto, na lagoa, no açudeco, no rio… E isso, pro sertão, é tudo festa. As viagens, as andanças, as correrias, ficam mais gostosas, com o orvalho que molha, principalmente nas manhãs, trazendo a esperança de melhorar o de comer e de ver a vida melhorar.
O bravo homem do sertão pega sua foice, seu machado, sua enxada, seu facão Collins e ganha o mundo, atrás de coisa boa. A palavra empregada aqui (“Esperança”), resume bem esse período, por aqui.
É na chuva que o homem do sertão se refaz, prepara o roçado e o paiol, convoca sua força-tarefa para trabalhar e se enche de orgulho de sua terra, mesmo pouco; esse tempo é tão mágico, que, muitas vezes, ele esquece do governo, das forças oficiais, de quem deveria estar por perto, mas nem sempre chega ou arremedeia os problemas de alguém.
Mas, com a fartura trazida pelo bom inverno, as coisas mudam. O homem que vivia olhando pros céus, em busca de um milagre de São José ou de Deus Pai, agora está mais calmo e até fazendo planos pra “fimrr d’água”.
É desse sertão que vem a maior parte das alegrias de quem foi menino, por lá; tempos de milho verde na brasa ou na panela, de peixe assado, de maxixe no feijão, de leite mungido no curral, da melancia friinha, depois de aberta, na cabeça de um toco.
*João Teles de Aguiar
Professor, historiador e integrante do Projeto Confraria de Leitura.