É no caos ou no silêncio que os escritores criam as suas histórias? Na rede ou na cadeira gamer? Onde o texto flui, se assenta, se acomoda? Onde os personagens se sentem em casa?
Meu lado jornalista encontrou-se com meu lado escritora e ainda me fizeram lembrar as tardes de domingo em que eu me reunia com minha mãe e minha irmã para ver o apresentador chegar à casa de alguns telespectadores.
Aprendi com Bruno Paulino: “Peça licença, mas não deixe de entrar…” Sendo assim, pedi ao vencedor do Jabuti de 2018 e autor de dez obras para me mostrar o seu lugar de escrita. Vocês prestaram atenção na frase “Na luta é que a gente se encontra”? Foi a primeira coisa que eu vi. “Eu tenho um espaço que leio e guardo meus livros, mas não considero um “cantoooo” de escrita. Na verdade, da forma como minha escrita acontece, fujo de lugares fixos, a coisa acontece e vai”, explica Mailson Furtado. E foi mesmo, já que no meu Podcast Cafezim com Literatura ele conta que a primeira inspiração para escrever o premiado “À Cidade” foi olhando para um açude.
Tércia Montenegro nos mostra um pouco da sua intimidade. “Então, é um canto de refúgio mesmo, em que me cerco dos livros preferidos, dos objetos de proteção e afeto. Quando entro lá, sei que é para criar e ter momentos de surpresa. Tudo ali está sempre silencioso e pouco iluminado, e raras pessoas entram nesse quarto. É como se fosse um quarto secreto, realmente”, contou a autora de “Um prego no Espelho”, “Turismo para Cegos” e outras obras.
Ana Marcia Diogenes se motiva ao olhar para a janela. O cenário de céu e a claridade contribuem para a inspiração da escritora que prefere o silêncio. “Como jornalista, escrevia em uma redação com mais de cem pessoas, mas, hoje, como escritora, preciso do silêncio completo para me concentrar nos personagens, nos detalhes, na composição do capítulo. Foi aqui que nasceu Buraco de Dentro. Estou cercada de fotos da família e objetos que me lembram viagens. Adoro música, mas escuto antes, é o meu ritual. Pretendo investir em uma reforma neste espaço para ter mais livros perto de mim”, conta a jornalista e escritora autora também das obras “Caso porque te amo, mato porque me amo”.
A escritora Adriana Negreiros atualmente mora em São Paulo, mas o cantinho de trabalho é bem nordestino — com xilogravuras e uma Maria Bonita em madeira comprada em uma viagem a Juazeiro do Norte. “Eu trabalho nessa mesa na minha sala do apartamento onde moro em São Paulo com minhas duas filhas e meus três gatos. Costumo mudar a mesa de lugar. Acabei de colocar a mesa nesse espaço, para marcar o começo do ano. Tom, o gato que aparece na foto, é meu companheiro de escrita. Ele lê sempre meus textos antes que sejam enviados para meus editores”, explica a autora de “Maria Bonita” e “A vida nunca mais será a mesma”.
A ideia não foi minha
A ideia de mostrar o cantinho da escrita dos autores é maravilhosa, mas não foi minha.
A Folha lançou, em dezembro, uma série especial chamada “Lugar de Escrita”, na qual mostra o ambiente de trabalho de diferentes escritores, resultado de um trabalho feito pelo editor Walter Porto e pelo fotojornalista Eduardo Knapp. Silvana Tavano, que acaba de conquistar o Prêmio Oceanos, foi a primeira perfilada. As fotos estão disponíveis aos assinantes da Folha, mas a ideia também não foi do jornal, que se inspirou no livro “O lugar do escritor”, lançado pela Cosac Naify, em 2002. Um histórico ensaio visual do fotógrafo Eder Chiodetto sobre a rotina de trinta e seis autores brasileiros, como Jorge Amado, Hilda Hilst, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo e Lygia Fagundes Telles. Além de colher seus depoimentos, o fotógrafo captou detalhes dos ambientes de trabalho, penetrou no território de suas bibliotecas e compôs um retrato sensível de cada um deles. O lugar do escritor é um painel fascinante que junta imagem e palavra, confissão e memória, diálogo e reportagem.
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Eh, Mirelle, já começando o ano com perguntas difíceis. rsrsrsrs "É no caos ou no silêncio que os escritores criam as suas histórias? Na rede ou na cadeira gamer? Onde o texto flui, se assenta, se acomoda? Onde os personagens se sentem em casa?".
Ah, e que ideia bacana essa, viu (de mostrar o cantinho da escrita dos autores)!?
Feliz ano novo para você e para todos os seus leitores!