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“O misterioso homem da casa 37” – Por Paulo Rogério

Paulo Rogério é jornalista.

“Ficar em sua própria companhia também é uma arte”, aponta o jornalista Paulo Rogério

Confira:

A casa 37 era a única que, geralmente, estava sempre às escuras no condomínio. E olha que o amontoado de residências naquele pedaço de terreno passava de 110. Quase todas iguais, seguindo o mesmo padrão de um jardim na frente, espaço para um carro, janela da sala, portão lateral e lá dentro dois ou três quartos, fora o básico de banheiro, cozinha, etc.

Há algum tempo chamavam isso de cortiço, vila de casas, vilinha. Hoje é condomínio, parque residencial ou um sinônimo mais chique. Mudou-se o nome, mas a embalagem é a mesma.

Pois bem. A casa 37 tinha esse diferencial. De dia ficava fechada, não se via movimento. Sabia-se que tinha gente morando porque à noite, uma luz ficava acesa dentro da casa. Algumas vezes um homem saia e era possível ver a penumbra dele, sentado em uma cadeira plástica, cabeça baixa, mexendo compulsivamente no celular.

Sempre estava só. Não havia meninos por perto, nem mulher, nem cachorro, gato. Era ele e algumas garrafas verdes de cerveja. Quem seria esse homem? Porque estava sempre no escuro? E sozinho?

A fofoca foi ganhando espaço e criando teorias. Segundo algumas, ele teria sido abandonado pela mulher, que fugiu com o amante para o Tocantins. Outro grupo afirma que a esposa não suportou a mudança para a cidade pequena e voltou para São Paulo. Ele não pode ir por causa do bom emprego que paga salário e moradia.

O que se sabe, de verdade, é que ele realmente trabalha em uma indústria de celulose. O que faz, os moradores não sabem. Chegou no condomínio há seis meses, mas não fez amizade com ninguém. Nem os porteiros – sempre boas fontes de informação – sabem maiores detalhes.

Outra quinta-feira dessas passei em frente a casa 37 e o vi. Tinha oito garrafinhas verdes sobre a mesa. Diminui o passo, dei uma tosse forçada, mas o sujeito nem me olhou. Manteve os olhos no celular, cabisbaixo, rosto iluminado pela tela.

-Nem para dar um simples boa noite. Que sujeito mal educado! resmunguei sozinho. Na volta, tento de novo.

No retorno, a escuridão era a mesma. Ele já não estava lá. Só a mesinha com 10 garrafas e as cadeiras, uma delas aquelas de balanço feita com cordinha. Ah, e um breu geral. Será que o homem era foragido? Um ermitão estilo moderno? Por que estava sempre só?

Podia ser uma opção de vida, uma decisão pensada. Quantas vezes nos decepcionamos com o ser humano e queremos ficar sozinhos, sem falar com ninguém. Tem horas que, mesmo cercados por pessoas, nos sentimos abandonados, como se ninguém notasse que precisamos de um acalento, de uma voz parceira, um conselho. Ou simplesmente desabafar.

Ficar em sua própria companhia também é uma arte. Você, meu amigo leitor, já parou para refletir se sua presença está sendo agradável? Quanto tempo você suportaria conviver com você mesmo?

Foi, então, que passei a admirar o misterioso homem da casa 37.

Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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