“O ocaso de Ciro Gomes: o que explica o ex-presidenciável estar atrás nas pesquisas no Ceará” – Por Bruno Soller

Bruno Soller é colunista do jornal O Estado de São Paulo e comentarista no Grupo Record

“Candidato voltou ao estado imaginando encontrar seu porto seguro e encontrou uma eleição extremamente difícil”, aponta o colunista Bruno Soller

Confira:

Poucos personagens da política brasileira das últimas quatro décadas tiveram uma trajetória tão intensa quanto Ciro Gomes. Foi prefeito de Fortaleza, governador do Ceará, ministro da Fazenda, ministro da Integração Nacional, deputado federal e quatro vezes candidato à Presidência da República. Durante muito tempo, Ciro pareceu carregar consigo a promessa de que, em algum momento, sua hora chegaria.

Não chegou.

Derrotado sucessivamente em suas tentativas de alcançar a Presidência, Ciro resolveu voltar ao lugar onde construiu sua força política e onde, durante décadas, seu sobrenome foi quase sinônimo de poder: o Ceará.

O retorno ao estado parecia, inicialmente, uma operação relativamente segura. Era a possibilidade de reconstruir uma carreira nacional desgastada a partir de seu território de origem. Mas as pesquisas de opinião pública começam a mostrar que a empreitada pode terminar em mais um revés.

A RealTime Big Data divulgada em 26 de setembro colocou Elmano de Freitas com 48% das intenções de voto contra 41% de Ciro. No segundo turno, 49% a 43%. A diferença está fora da margem de erro.

Nesta terça-feira (29), a AtlasIntel que já havia mostrado uma virada na semana anterior, apresenta um crescimento da distância entre Elmano e Ciro, embora tecnicamente empatados.

O movimento das pesquisas, entretanto, é suficiente para revelar algo politicamente relevante: Ciro voltou ao Ceará imaginando encontrar seu porto seguro e encontrou uma eleição extremamente difícil.

Talvez porque o Ciro que voltou seja bastante diferente daquele que saiu.

Durante boa parte de sua trajetória nacional, Ciro tentou ocupar um espaço próprio. Não era petista, mas tampouco aceitava ser confundido com a direita brasileira. Foi ministro de Lula, construiu parte importante de sua identidade política no campo desenvolvimentista e, sobretudo nas campanhas de 2018 e 2022, tentou apresentar-se como alternativa à polarização entre PT e bolsonarismo.

Esse espaço desapareceu.

Na tentativa de derrotar o grupo político que hoje governa o Ceará, Ciro aproximou-se justamente de setores que durante anos estiveram no lado oposto de sua narrativa nacional. Sua atual campanha reúne forças da direita, e sua aproximação com partidos desse campo tornou-se parte central da disputa cearense.

O problema não está simplesmente em fazer alianças. Política é, por definição, a construção delas. O problema aparece quando a aliança entra em conflito com a identidade construída durante décadas.

Uma liderança política pode mudar de posição. Pode rever conceitos. Pode até reconhecer que estava errada. O eleitor compreende mudanças quando consegue identificar uma lógica para elas. O que ele dificilmente compreende é a ausência de uma identidade reconhecível.

E talvez esse seja hoje o maior drama político de Ciro Gomes.

Ao longo dos anos, ele passou por PDS, PMDB, PSDB, PPS, PSB, PROS, PDT e novamente PSDB. Mudou de partidos, rompeu com aliados, reconstruiu alianças e atravessou praticamente todo o espectro político brasileiro.

Algumas dessas mudanças tiveram explicações conjunturais perfeitamente compreensíveis. Outras foram apresentadas pelo próprio Ciro como demonstrações de coerência diante da transformação das legendas pelas quais passou. Mas a sucessão delas produziu, inevitavelmente, um custo: ficou cada vez mais difícil explicar onde termina a circunstância e começa a convicção.

Existe ainda uma ironia histórica difícil de ignorar.

Ciro iniciou sua trajetória eleitoral em 1982 pelo PDS, sucessor da Arena, legenda que havia dado sustentação política ao regime militar. Não foi filiado à Arena, como algumas vezes se afirmou erroneamente, mas começou efetivamente pelo PDS.

Quarenta e quatro anos depois, depois de passar pelo centro, pela centro-esquerda, pelo trabalhismo, de servir ao governo Lula e de disputar quatro eleições presidenciais tentando construir um caminho próprio, Ciro chega à reta final de sua carreira novamente associado à direita.

A história, às vezes, gosta de círculos.

Talvez seja cedo para decretar eleitoralmente o fim de Ciro Gomes. A disputa cearense permanece competitiva e há pesquisas que ainda registram empate técnico ou pequena vantagem para ele. Mas existe algo maior do que ganhar ou perder uma eleição acontecendo no Ceará.

Ciro passou boa parte da vida tentando sair do Ceará para conquistar o Brasil. Não conseguiu. Voltou ao Ceará para reconstruir sua história e descobriu que até mesmo o Ceará mudou enquanto ele estava fora.

O ocaso de Ciro talvez não seja simplesmente uma eventual derrota para Elmano. É perceber que o personagem que durante décadas tentou estar à frente do seu tempo, terminou correndo atrás dele.

E há uma última ironia. Depois de tantos partidos, tantas rupturas, tantas candidaturas e tantas tentativas de encontrar um lugar próprio na política brasileira, Ciro pode terminar sua trajetória exatamente próximo de onde começou: no Ceará, aliado à direita e lutando para provar que ainda representa o futuro.

Às vezes, uma carreira política inteira cabe dentro de um círculo.

Bruno Soller
Estrategista e pesquisador, especialista em comunicação política pela George Washington University e graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP.
Foi chefe de gabinete do Ministério da Cultura e trabalhou na Câmara dos Deputados, Delegação Europeia e Prefeitura de São Paulo. Foi observador eleitoral pela ONU.
É colunista do jornal O Estado de São Paulo e comentarista no Grupo Record. Possui experiência de trabalho em mais de 10 países.

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