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“O orgulho que vinha pelo rádio” – Por Suzete Nocrato

Suzete Nocrato é jornalista e Mestra em Comunicação Social da UFC. Foto: Arquivo Pessoal

Com o título “O orgulho que vinha pelo rádio”, eis artigo de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará. “

Confira:

A Copa do Mundo de Futebol começou. Ainda assim, entre a maioria das pessoas com quem convivo, não percebo a mesma ansiedade pelo hexa que alguns jornalistas, comentaristas e influenciadores insistem em anunciar. Posso estar enganada, e desde já peço desculpas se essa impressão não corresponde à realidade, mas a sensação que tenho é que nós, brasileiros, estamos menos empolgados do que em outros tempos. Andando por Fortaleza, encontro algumas ruas enfeitadas, mas em número e intensidade bem menores do que nos torneios anteriores.

Euforia mesmo tenho visto na minha Saboeiro. Por lá, as ruas estão decoradas com as cores da canarinho. Bandeirinhas verdes e amarelas espalhadas entre os postes e pinturas personalizadas tomam conta do asfalto, fazendo a cidade respirar futebol. Acredito que o entusiasmo se deva, em parte, ao anúncio da Prefeitura de que premiará o logradouro mais criativo e colorido.

Os torcedores, em sua maioria adolescentes e jovens, recuperaram um costume que andava esquecido nos últimos torneios. Muitos deles jamais viram a seleção brasileira erguer uma taça mundial, mas cresceram ouvindo histórias dos cinco títulos conquistados.

Não entendo de futebol e muito menos de escalação. Mas, depois de passar meses ouvindo que a amarelinha tem o melhor técnico do mundo, acreditei que jogar contra o Marrocos seria mais tranquilo e venceríamos. Sinto-me enganada.

Carlos Ancelotti — ou, como uma amiga minha o chama, Lancelotti —, você me decepcionou, assim como todos em campo. Aliás, até o último sábado, minhas amigas de um grupo de WhatsApp não conheciam a maioria dos jogadores, nem mesmo pelo nome.

Naquela tarde, eu e minha mãe, com 88 anos, nos preparamos para assistir à estreia da equipe brasileira na maior Copa já realizada. Antes do apito inicial, ela disparou que preferia que o torneio acontecesse em outro país e não nos Estados Unidos, por causa da política migratória do governo Trump, das restrições impostas a cidadãos de nações como Irã, Senegal, Haiti e Costa do Marfim, e de tantos outros fatos que envergonham e assustam a humanidade.

Voltando à seleção, dona Lúcia passou a partida inteira indignada com os jogadores.

— Esses meninos não jogam nada! — repetia a todo instante.

E logo começou a comparar aquele time ao escrete de 70. Eu era apenas uma menina, mas ainda guardo na memória uma das histórias mais marcantes da minha infância: um grupo de saboeirenses se organizou em uma caravana para ir à Jucás assistir à final, quando o Brasil derrotou a Itália por quatro a um.

Naquela época, Saboeiro não tinha energia elétrica e muito menos televisão. Durante todo o torneio, as disputas eram acompanhadas pelo rádio. Já na estreia contra a Tchecoslováquia, os mais fanáticos só falavam no confronto. Cada partida era um acontecimento, talvez uma forma de esquecer os desafios diários da sobrevivência. A final precisava ser vista. E a solução era seguir para a cidade vizinha.

No início da tarde, os únicos cinco carros do município — jipes Willys — estavam enfileirados em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora da Purificação. Nossa família ocupava o segundo veículo. A empolgação era tanta que ninguém reclamava da poeira da estrada. Entre comentários e palpites sobre o resultado, os 73 quilômetros pareceram bem mais curtos.

Eu não assisti ao jogo. Passei a maior parte do tempo brincando na pracinha em frente ao bar onde os torcedores se acotovelavam para acompanhar, em preto e branco, os dribles de Pelé, Jairzinho, Rivelino e companhia. Mas me lembro perfeitamente de meu pai vibrando quando o capitão Carlos Alberto levantou a Taça Jules Rimet, no Estádio Azteca, no México.

Por isso, entendo a indignação de minha mãe. Ela pertence à geração que viu jogadores capazes de fazer o brasileiro andar de peito estufado e acreditar que vivia no país do melhor futebol do mundo.

No último sábado, porém, passamos por um verdadeiro Deus nos acuda, rezando para que o confronto terminasse empatado. Uma vergonha.

Tomara que o time do italiano Ancelotti encontre um jeito de nos emocionar e que meus filhos sintam pela canarinho o mesmo orgulho que meu pai carregou naquela longínqua tarde de 1970.

Quem sabe um dia.

*Suzete Nocrato

Jornalista e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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