Com o título “O país Nordeste acende as suas fogueiras”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. “Durante décadas, nordestinos ouvem piadas, sofrem discriminações e são tratados com desdém por alguns de seus irmãos do Sul e do Sudeste, como se fôssemos menores. Mas a nossa cultura responde da maneira mais elegante possível, que é permanecendo”, expõe o colunista.
Confira:
Não precisa ser da nossa região para saber e sentir, que o mês de junho chega e o Nordeste muda de cor. A terra ganha bandeirolas, o céu se ilumina com fogueiras e o vento parece carregar, entre os campos e as cidades, memória antiga que se recusa a partir.
As festas juninas são muito mais do que música. São a celebração completa da alma nordestina. Estão no cheiro do milho assado, da canjica e do bolo recém-saído do forno. Estão nos vestidos coloridos, nos chapéus de palha e nos sorrisos que atravessam gerações.
Estão nas brincadeiras, nas quadrilhas, nas rezas e na mesa compartilhada entre parentes, amigos e vizinhos. É o tempo em que a cultura deixa de ser discurso para se tornar experiência, deixando de lado a idolatria a símbolos de outros nações, até porque, somos e estamos em todos os lugares.
Cada fogueira acesa parece lembrar que um povo só permanece vivo quando preserva suas raízes, que por aqui, vem de longe, pois remontam ao século XVI, quando milhares de judeus sefarditas deixaram a Península Ibérica e vieram para o Nordeste fugindo da Inquisição.
Talvez em vista disso, poucas regiões do mundo cultivam suas tradições com a força e a naturalidade encontradas no país Nordeste. Há algo de profundamente simbólico nisso. Enquanto tantas referências se perdem na velocidade dos dias modernos, continuamos reafirmando nossa identidade.
Não como quem resiste por obrigação, mas como quem celebra por vocação, algo que está guardado na memória de nossos antepassados. Por isso, o São João é também ato de pertencimento. Declaração silenciosa de que a história de um povo não pode ser apagada por preconceitos ou estereótipos.
Durante décadas, nordestinos ouvem piadas, sofrem discriminações e são tratados com desdém por alguns de seus irmãos do Sul e do Sudeste, como se fôssemos menores. Mas a nossa cultura responde da maneira mais elegante possível, que é permanecendo. Permaneceu e permanece na literatura, na fé, na música, na culinária e nas festas que transformam ruas inteiras em encontros de afeto.
Permanece porque é maior do que qualquer preconceito. Talvez por isso, em junho, o Nordeste pareça menos região, e mais país. Um país sem fronteiras oficiais, mas delimitado por sentimentos comuns. País onde a sanfona ainda conversa com o coração, onde a família continua sendo patrimônio e onde a tradição não é peso do passado, mas ponte para o futuro.
Quando as fogueiras, portanto, iluminam a noite, não celebram apenas santos. Celebram um povo. E, por algumas semanas, lembram ao Brasil inteiro que existe um país chamado Nordeste, feito de cultura, memória, dignidade e extraordinária capacidade de transformar adversidade em festa, resistência em alegria e preconceito em sentimento de unidade cultural.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”.