Com o título “O País que precisa voltar a confiar”, eis artigo de Maurício Filizola, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza.efletir e compartilhar. Ele afirma que reconstruir confiança não é tarefa de um governo ou de uma instituição, mas uma decisão de todos.
Confira:
Nenhuma nação quebra apenas por falta de dinheiro. Quebra quando perde a confiança.
É como uma ponte invisível: enquanto existe, todos atravessam sem pensar. Quando ruí, ninguém se arrisca a dar o primeiro passo.
O Brasil vive, há algum tempo, sobre essa travessia delicada. Não faltam talentos, recursos, criatividade ou coragem empreendedora. O que falta, por vezes, é a certeza de que as regras do jogo valem para todos. E sem essa certeza, o investimento hesita, o cidadão desconfia e o futuro encolhe.
Confiança não nasce de discursos; nasce de coerência. Ela se constrói quando instituições agem com previsibilidade e quando o cidadão percebe que a lei não muda conforme o sobrenome, o cargo ou a conveniência. Um país confiável é aquele onde o certo não precisa ser defendido em voz alta — ele simplesmente prevalece.
O papel das instituições é, portanto, mais simbólico do que parece. Não basta serem corretas; precisam ser compreensíveis. Decisões transparentes, processos claros, responsabilidades assumidas. Quando o Estado comunica com clareza e age com equilíbrio, ele envia à sociedade uma mensagem silenciosa: “há direção, há justiça, há estabilidade”. E estabilidade é o terreno onde a prosperidade cria raízes.
Mas a reconstrução da confiança não é tarefa exclusiva dos governos ou tribunais. Começa no comportamento cotidiano do cidadão. No respeito às regras simples, no compromisso com a verdade, na recusa em normalizar pequenos desvios que, somados, corroem grandes estruturas. Um país íntegro não se constrói apenas com leis rígidas, mas com consciência coletiva.
Também cabe às lideranças — públicas e privadas — um papel decisivo. Líderes não restauram confiança por decreto, mas por exemplo. Quando assumem erros, quando praticam a coerência, quando priorizam o bem comum sobre o ganho imediato, tornam-se faróis em tempos nebulosos. E faróis não afastam a tempestade, mas mostram o caminho seguro.
Talvez a maior maturidade de uma sociedade seja compreender que confiança não é um sentimento ingênuo; é um patrimônio estratégico. Sem ela, contratos viram apostas, decisões viram suspeitas e o progresso se torna intermitente. Com ela, a economia respira, as relações se fortalecem e o futuro deixa de ser promessa para se tornar construção.
O Brasil não precisa ser perfeito para avançar. Precisa ser previsível. Precisa mostrar que a lei é caminho, não obstáculo; que o mérito é reconhecido; que a justiça não se dobra ao vento das conveniências. Quando isso acontece, algo silencioso se restabelece: a vontade de acreditar.
E talvez seja esse o ponto de virada que nos espera. Não o dia em que todos concordarão sobre tudo, mas o dia em que, mesmo discordando, confiarão nas regras que nos mantêm de pé. Porque um país que volta a confiar em si mesmo descobre que crescer não é um salto — é uma consequência.
*Mauricio Filizola
Presidente da CDL Fortaleza, empresário e diretor do Sincofarma-CE.